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Ouvir o sussurro dos fios

Se uma das tarefas da poesia é jogar luz sobre detalhes silenciosos e minuciosos da vida cotidiana, então a observação detida do tecido é um excelente gesto para a poesia. O manuseio paciente e curioso do tecido pronto, quando unido à nossa capacidade imaginativa, prolongadora do tempo e do espaço, pode nos levar à percepção do processo que o levou até ali: a coleta e manufatura da matéria-prima, a organização dos fios, a estrutura que entrelaça a matéria. Tudo isso forma uma teia carregada de sentido, trabalho, rito e magia.


Textos e têxteis compartilham princípios e verbetes. Têm uma relação de proximidades e afastamentos ao longo da história dos povos. A ideia de que a palavra é criadora do mundo é corrente e atravessa tradições religiosas, filosóficas e poéticas. Tem sido especialmente alimentada pelo cristianismo e, entre muitas influências, por poetas que a tematizam em tal posição proeminente, encarando o texto como sujeito transformador da sociedade.


"Por qué cantáis la rosa, ¡oh Poetas! / Hacedla florecer en el poema", escrevia o chileno Vicente Huidobro no poema “Arte poética", de 1916. Sua proposta creacionista, no bojo das vanguardas latino-americanas, buscava ultrapassar o limite da descrição da natureza para passar a inventar o mundo, a vida, as novidades. Décadas depois, em 1962 num poema chamado “Palabras”, escrevia Pablo Neruda que “dan vida a la vida las palabras”. Três décadas mais tarde, reinventando essa importância poética cedida à palavra, a artista visual e poeta chilena Cecilia Vicuña propõe uma composição distinta, deslocada: nela, a palavra convive com os fios que formam os tecidos, que têm sua importância reconhecida. Assim, escreveria ela que “o fio tece o mundo”.


Deslocar a centralidade isolada do texto para uma outra centralidade, mais compartilhada e entramada, reaproxima o labor poético do trabalho manual e borra algumas divisões limitantes — entre a arte como disciplina excludente e o artesanato, ou as vanguardas e as produções tradicionais e populares, ou o contemporâneo e o antigo. “A tecelã vê sua fibra como a poeta sua palavra”, diz um verso de Vicuña. Tais mudanças de paradigma presentes na poesia de Vicuña acompanham sua arte visual e performativa. Acompanham também tendências estéticas que, a partir dos anos 1980 e 1990, buscaram rever os cânones, a relação da arte com a natureza e novas possibilidades de expressão da linguagem: “A verdadeira performance é aquela da nossa espécie na Terra: o modo como provocamos sofrimento nos outros, o modo como aquecemos a atmosfera ou causamos o desaparecimento de outras espécies”, escreve Vicuña no poema “Tecido-nuvem”, de 1998.


Esse conjunto de questões aparece em A palavra e o fio, edição brasileira de poemas e entrevistas de Vicuña publicada em 2024, com tradução de Dirce Waltrick do Amarante. A edição parte da breve publicação Palabra e hilo / Word & Thread, livro bilíngue de Vicuña publicado originalmente em 1996 em Edimburgo, e acrescenta uma seleção de outros poemas da autora e duas entrevistas realizadas em 2018 e 2020.


“Um tecido antigo é um alfabeto de nós, cores e direções que já não podemos ler”, diz Vicuña em um dos versos do poema “Palavra e fio”. Textos e tecidos podem convocar, portanto, maneiras de mediação entre povos de diferentes tempos, espaços e linguagens. Talvez seja a tradução mais uma espécie de fio da palavra, uma vez que é condição da internacionalização de sua obra artística, o que acompanha sua condição migrante desde os anos 1970. A tradução é um elemento do livro desde seu princípio “original”, e é também o que torna possível sua circulação entre o público brasileiro.


Essa circulação, quando expandida, nos permite reconectar a produção artística dos povos do Brasil e de outros território latino-americanos, explorando tensões, rupturas e questionamentos comuns aos diferentes contextos. A tradução, assim como a poesia, é “a arte da interação, é uma arte profunda da imaginação humana”, diz Vicuña em uma das entrevistas do livro. É dessa interação — entre humanos e natureza, em espaços entremeados de criação — que a artista convida a nos ocuparmos.

 

Poesia passada-presente-futura


Sequer pode-se dizer que a obra de Cecilia Vicuña salta da página, uma vez que nunca esteve presa nela. Sua poesia participa de uma multiplicidade de trabalhos que, ao longo de mais de cinco décadas, explora a precariedade e as conjunções possíveis entre tradição e vanguarda em dimensões diversas, entre pinturas, objetos e instalações — algumas cabíveis dentro de instituições de arte, outras possíveis apenas a céu aberto, no ambiente natural.


A tridimensionalidade e as grandes proporções são uma marca desse trabalho, a exemplo dos quipus, obras contemporâneas que retomam o antigo objeto de sistematização e contagem andina em montagens diversas de longas mechas de lã não fiada. A atribuição de complementos que diferenciam e renomeiam os quipus — Quipu Menstrual, Quipu del Exterminio, Quipu Desaparecido, Quipu Mapocho, entre outros — cria sentidos contemporâneos, que se relacionam com contextos políticos e ecológicos do Chile e do mundo.


“Quipu Mapocho” (2012), fotografia incluída em A palavra e o fio
“Quipu Mapocho” (2012), fotografia incluída em A palavra e o fio


Em um poema de 2001, “O quipu vivo”, Vicuña faz da palavra escrita um suporte para compartilhar questionamentos sobre experiências performativas. A poesia, porém, não está apenas no registro posterior à performance, mas durante ela própria, uma vez que nela também a artista se coloca como poeta. Sua pergunta poética toca em um tema sensível da alteridade que participa de um conjunto de teorias sobre a leitura, a mediação e a interlocução das práticas artísticas. 


A certa altura, comecei a atar a audiência com fios, ou a me atar a mim mesma na audiência.

Quem está performando: o poeta ou a audiência?

Unidos por um fio, nós formamos um quipu vivo: cada pessoa é um nó, e a performance é o que acontece entre os nós.

 

Os nós e cores dos quipus andinos ancestrais registram, segundo a socióloga aimará Silvia Rivera Cusicanqui, "inscripciones propiciatorias de naturaleza ritual, que permitían ordenar el cosmos al enumerar las ofrendas”. A capacidade de abstração e ritualização dos quipus os aproxima da arte têxtil e da linguagem poética. Por sua vez, para Vicuña, os quipus são uma forma de recordar que envolve corpo e cosmos.[1] Há, portanto, um mesmo fio que conecta tempos e modos de vida pré-coloniais e a obra pós-moderna de Vicuña, na qual também estão estritamente ligados os poemas de A palavra e o fio e as instalações visuais que se seguiram no milênio atual.


Em outro poema, intitulado “Entrando”, Vicuña escreve em tom ensaístico sobre descobertas de seu processo artístico em relação à recordação e à espiritualidade. No poema, estabelece vínculos entre pensamento e desejo, que se expressam na obra de arte. Esta, por sua vez, é entendida como uma ação e uma oferenda. As mediações passam, portanto, pela materialidade dos seres vivos, mas também a ultrapassam.


O precário é o que se obtém por oração.

“O quipu que não recorda nada”, uma corda vazia, foi a minha primeira obra precária.

Orava fazendo um quipu, ofertava o desejo de recordar.

 

Para a crítica argentina Florencia Garramuño, o conjunto de práticas no qual essa produção artística se insere mudam a cultura e a estética contemporânea, cujas fronteiras se expandem exponencialmente, unindo o ancestral e o contemporâneo. Ela pergunta: “como podemos pensar a relação entre o conhecimento ou saberes ancestrais e a poética nas práticas ameríndias contemporâneas? De que forma essas poéticas, ao mesmo tempo que carregam consigo uma sobrevivência de tempos imemoriais, se inscrevem em nosso presente?”[2] Para responder, é preciso que nos demoremos na observação e conexão com as obras. Assim, percebemos o aprofundamento de uma ideia que se postulava em um par de versos de A palavra e o fio: a de que a resposta para a pergunta “A palavra é o fio condutor, ou o fio conduz ao palavrar?” deve ser “Ambos conduzem ao centro da memória, a uma forma de unir”.

 

Formar e retomar comunidades


Pela poesia, Vicuña postula uma filosofia artística do fio, criando um documento estético que participa de uma ampla obra têxtil. Ao mesmo tempo, devolve ao âmbito da poesia e dos poetas um conjunto de questionamentos e deslizamentos de sentido que tensionam esse circuito. A tensão — tão importante à literatura — é, inclusive, mencionada na obra, sendo mais um ponto de encontro entre textos e têxteis:


O fio está morto quando está solto, mas está vivo no tear:

a tensão lhe dá um coração.


Dentre as tensões formais que avivam o texto poético de A palavra e o fio, está uma confluência de citações. Frases de Elayne Zorn, René Daumal, Mary Frame, Ubbelohde-Doering, entre outros pesquisadores, artistas e etnógrafos do norte global são intercaladas com explicações de palavras quechua, como watuq, chantaysimi, pallay. Mais uma vez, a questão da tradução entra em cena, assim como o debate crítico proposto por Garramuño e outras em relação a uma produção artística que extrapola o interesse etnográfico. Nos poemas de Vicuña, as palavras vindas de fora e as vindas de dentro dos povos tecedores operam como vetores múltiplos. Esses vetores formam uma estrutura de escrita entramada, capaz de tocar nos conflitos e, ainda assim, apostar na composição — uma vez que “A palavra e o fio são o coração da comunidade”, e que “A tecelã está lendo e escrevendo ao mesmo tempo/ um texto que a comunidade sabe ler”.


Nesse exercício metalinguístico, Vicuña cria um sujeito poético e artístico que é, ao mesmo tempo, aglutinador e crítico. Escreve, lê, tece e fala, em oposição a uma imagem clássica do artista ocidental que se ocupa da diferenciação, do isolamento e da manutenção de hierarquias socioculturais. Ao retomar a centralidade do fio, do tecido e do corpo comum, Cecilia Vicuña posiciona sua obra em oposição ao suposto desenvolvimento predatório capitalista, racista e patriarcal. Chama a atenção para o que é ocultado, desprezado, diminuído. Por isso, em suas performances, muitas vezes sussurra — inclusive ao ler Palabra e hilo:[3] ela quer que ouçamos o inaudível, o som infraperceptível do mundo.


Helena Zelic para A bobina. Helena é poeta, artista têxtil, professora e mestra em Teoria e História Literária, tendo pesquisado sobre a poesia chilena produzida durante o regime militar. É autora de “A libertação de Laura” (Macondo, 2021), entre outras publicações de poesia. Para A Bobina, já escreveu os textos críticos “Um prêmio para uma antibandeira” (2023) e “Na encruzilhada uma ilha de edição” (2024).


[1] As referências deste parágrafo são discutidas no trecho “Adeus à palavra” da tese de doutorado de Rodrigo Lobo Damasceno (2019).

[2] Trecho da aula "Fogo no Arquivo: Práticas Estéticas Ameríndias na Cultura Latino-americana Contemporânea", cedida na Escola de Letras Unirio em maio de 2024.

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