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Memorial das mulheres (e) da infância: Estado Febril, de Thaís Campolina


 

Publicado pela Macabéa edições - editora voltada à publicação feminina - Estado Febril foi escrito pela poeta mineira Thaís Campolina, autora também dos livros investigar qualquer coisa sem registro (Crivo, 2023) e frigideira (orlando, 2024), entre outros.

 

A poética de Campolina se destaca pelo desdobramento em torno do cotidiano. Isto se mantém em Estado Febril, embora, aqui, ele seja resgatado por meio da chave da memória – da infância e das avós, principalmente, como aponta a poeta Letícia Miranda no posfácio da obra.

 

Dividido em quatro seções (dupla hélice, corpo celular, lentes de quartzo e a composição das estrelas) o livro se concebe como um inventário de objetos e sensações simples, mas que encontram respaldo na ciência. Neste contexto, no poema “mecanismo” (p. 11), da primeira seção, a eu-lírica descreve “uma pirâmide”, que se forma ao abrir “a porta de casa de seus pais”. Já na última, composição das estrelas, “mercúrio” é o elemento chave do poema “mercúrio demanda desambiguação”, sendo trabalhado de forma multifacetada, que vai do planeta ao medicamento mercúrio-cromo.

 

Desta forma, ao misturar ciência e história pessoal (o que inclui, com muita força, a história da família), a eu-lírica une o factual e o subjetivo, adicionando uma camada de embasamento à memória fugidia ou que não foi registrada, como é explicitado no poema “[é imprudente enfrentar sozinha]” (p. 53):


é imprudente enfrentar sozinha

tantos olhares desmoronados

entre mim e o mundo

sempre precisou haver

ao menos uma lente

de leitura

 

Aqui, identificamos um duplo movimento: o olhar é “desmoronado”, o que, no contexto do livro, ocorre tanto de forma literal – por meio da miopia, que afeta tanto pai quanto filha, que ama ler – quanto de forma metafórica. Podemos interpretar o “olhar desmoronado”, que impede a eu-lírica de “enfrentar o mundo sozinha” como a característica falha da memória que, através de “uma lente / de leitura”, consegue se estabelecer. Pensando a constante referenciação, na obra, a elementos científicos, é possível dizer que essa lente de leitura diz respeito a essa nuance, que possibilita a organização da memória.

 

Vale pontuar que a ciência e a memória não caminham sozinhas em Estado Febril, mas propõem uma discussão interessante sobre a questão de gênero. Como já pontuado por Letícia Miranda no posfácio, “Thaís faz as avós ressurgirem” (p. 97). As histórias são contadas por um prisma de criticidade – sem romantização ou demonização, mas elencando um registro do que é ser mulher partindo de sua memória afetiva e ancestral e do apagamento feminino dentro da história da ciência. Isto se observa em alguns fragmentos do poema “mercúrio demanda desambiguação” (p. 86-87):

 

a palavra mercurial foi usada

para definir todas as mulheres

interessantes

que eu conheço


*


para ser considerada mercurial

a mulher só precisa aprender

a dizer não


*


mercurial é a mulher

de raciocínio v(f)el(r)oz

 

Estes trechos possuem um tom que é pessoal e, ao mesmo tempo, geral. Nos primeiros versos, a eu-lírica fala de “todas as mulheres / interessantes / que eu conheço”, que indica, com mais força, pessoas de seu convívio. Isto é quebrado no segundo fragmento, “para ser considerada mercurial / a mulher só precisa aprender / a dizer não”. Essa enunciação se volta para o global, para uma condição que vale para todas as mulheres, sejam elas próximas da eu-lírica ou não. Já o terceiro fragmento define “mercurial” como uma mulher “de raciocínio v(f)el(r)oz”, deixando explícita a referência às mulheres "que pensam", o que pode ser lido como signo da importância da ciência (e das mulheres cientistas) na obra.

 

Desta forma, Campolina concilia a história das mulheres de sua família e das que foram apagadas na ciência numa intersecção que as equipara, visto que ambas desempenham um papel semelhante na construção de sua própria subjetividade. Assim, Estado Febril transforma a memória em campo de experimentação, onde ciência e ancestralidade se cruzam para reinscrever a voz das mulheres — as da família, as da história, e as que ainda sonham.

 


Laura Redfern Navarro para A bobina. Laura nasceu em São Paulo. É poeta, jornalista e pesquisadora.

 

 

 

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