top of page

Aceito moral, literatura e um ponto pra Ogum



O que não tem espaço está em todo lugar.

Jota Mombaça

 

A epígrafe evocada é, na verdade, uma intervenção artística realizada por Jota Mombaça no Museu de Arte do Rio (MAR), na ocasião da exposição Arte Democracia Utopia – quem não luta tá morto, com curadoria de Moacir dos Anjos, nos idos 2018. Não tenho fotografia do trabalho, mas guardo a lembrança da imagem na retina e seus ecos na cabeça. Mais tarde, a intervenção dará título a um filme que Jota realizará em 2020. Trata-se de um filme-ensaio sobre desterro, não-lugar, amores e forja da liberdade. Não sei se o filme cabe bem nessas palavras, mas ele certamente emerge delas; palavras estas que trazem [um] tom para a leitura da prosa Garupa da Ladeira [GLS para motoboys], de Guilherme Zarvos, publicado pela editora Oca, no primeiro semestre de 2025.

 

Não hétero, não branco, não rico. Sou o boy.


Quem narra é um motoboy que, dando grau na palavra, diz em primeira pessoa suas aventuras, desventuras, suas cicatrizes inscritas no seu corpo-memória. O subtítulo acima é frase que encerra este trabalho de Zarvos (desculpa o spoiler) e, de acordo com vozes da minha cabeça, se comunica com a epígrafe de Jota – o paradoxo proposital. A artista cria uma tensão lógica com sua frase: como algo que não tem um lugar definido (não tem espaço) pode, ao mesmo tempo, estar presente em todos os lugares? Em Jota Mombaça e em Guilherme Zarvos, esse paradoxo força a pessoa espectadora/ouvinte/leitora a sair de uma lógica binária e espacial simples (aqui/ali, presente/ausente) e a pensar em termos de presença difusa, fantasmagórica e onipresente. Graças à escrita de Zarvos, essa força-metamorfose, que representa a onipresença difusa, está em Garupa da Ladeira. O motoboy – “não hétero, não branco, não rico”, refere-se a tudo e a todas as pessoas que são sistematicamente excluídas, marginalizadas e negadas um lugar de fala, existência e legitimidade dentro das estruturas de poder hegemônicas (coloniais, patriarcais, cis-heteronormativas, capitalistas). Em Garupa, o motoboy reivindica onipresença, dá pinote e raspa a mão no chão; o “boymagia-pintafogo-gozada túnel do tempo” - personagem paratópico [1]  por excelência, ganha voz, domínio, passa a circular em todo lugar. Representar esse motoboy com e nas letras é [not only but also] um ato político.


Pergunto-me se essa imbricação entre literatura e política seria diferente, observando a trajetória engajada de Zarvoleta, como é conhecido por próximos. Em livro dedicado à sua obra, Renato Rezende afirma que, “na medida em que se dá, o próprio corpo de sua literatura é constituído pelo lugar de confluência entre a poesia, o discurso político, o manifesto e outras vozes, em uma mistura de gêneros e intenções que, por sua vez, se confundem com seu trabalho como performer e ativista cultural.” [2] A intenção poética torna-se política aqui (ou vice-versa?). Vou inferir que, talvez, tenha sido essa mesma intenção que levou Zarvos a fundar, junto a Chacal e a outros poetas, o Centro de Experimentação Poética – o CEP 20.000, que completou trinta e cinco anos de (r)existência este ano. A onipresença difusa de pessoa à margem em Zarvos era característica já alimentada há tempos, assim como a fissura de normas sociais e o desejo de esboroamento de instituições. Quer-se dizer que a justaposição entre literatura e política em Zarvos já estava gestada, parida e, hoje ainda, [regozijemo-nos!] grita goela a fora em Garupa da ladeira e está dando cada vez mais cria. Garupa segue na ladeira onde a linguagem é campo de batalha.

 

You left me hypnotized. You left me


Garupa da Ladeira [GLS para Motoboys] é uma obra que desafia classificações convencionais; mergulha em um fluxo de consciência redemoinhante e visceral. O texto tem gosto, cheiro e som. Textura também. O todo é atravessado por uma voz narrativa que parece desgovernada, mas profundamente consciente de seu efeito disruptivo e sinestésico.


O livro se constrói como um mosaico de vozes, memórias e experiências brutais, mesclando realidade e delírio em uma narrativa que reflete a vida marginalizada de seus personagens. A linguagem, deliberadamente fragmentada, reproduz um ritmo acelerado e desorientador. A mistura de registros – do coloquial ao poético, do violento ao lírico, reforça a hibridez do texto, que não se encaixa em um gênero literário tradicional. Arrisco-me dizer que seu projeto estético faz parte da literatura marginal contemporânea, mas não é “somente” isso. Há elementos de auto-socio-ficção (poderia afirmar?) e poesia experimental, mas também auto-fricção (favor não confundir com punhetação literária), onde a linguagem crua e a estrutura não linear servem para capturar violência, sexualidade, busca por identidade e por lugar em um mundo hostil.


O trabalho de Zarvos se apresenta em prolífico diálogo com as culturas hip-hop e funk. Esse traço é evidenciado na musicalidade resfolegante do texto e na dedicatória do livro: “para MC Carol e MC Kevin (em memória)”. Garupa é uma obra desconcertante e, portanto, necessária, que se recusa a ser domesticada por convenções literárias. Zarvos pinta um retrato cru da vida na periferia, onde a poesia surge como fuga. Oscilando entre o coloquialismo do spoken word e a complexidade do modernismo, Zarvos cria uma voz única. O escritor constrói uma narrativa polifônica, onde o protagonista transita entre lembranças de infância, experiências como gp, vícios, violência e encontros fortuitos com figuras como “o coroa” que, em um momento de grande exaltação da literatura como meio de transformação social, hipnotiza o motoboy com poesia.     

                 

[You left me hypnotized. You left me... ♫♪ ♫♪]. [bjo, Letrux!]

 

Garupa da ladeira: veredas ou o ato de escrever justifica a poesia


Quem se senta na garupa, rela. A relação entre Garupa da Ladeira e Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, é inevitável e significativa, especialmente no que diz respeito à representação da linguagem como força constitutiva da realidade e da subjetividade. Ambas as obras compartilham uma radical experimentação linguística que desafia as convenções do português padrão e constrói um universo narrativo singular. Como se sabe, em Grande sertão, Rosa cria um linguajar sertanejo poeticamente transformado, espessado de neologismos, arcaísmos e reinventa a sintaxe. Em Rosa, a linguagem não apenas descreve o sertão, mas é o sertão – ela encarna a visão de mundo, a filosofia e a oralidade do jagunço. Em Zarvos, a linguagem deliberadamente fragmentada, coloquial, emula a mente do narrador – caótica, traumatizada, poética e brutal configurando-se, portanto, como expressão de um mundo interior que pega carona no fluxo de consciência, na invenção sintática e na recuperação lexical da oralidade do motoboy da perifa. Ambas as obras são marcadas por um monólogo intenso e quase ininterrupto. Se em Grande Sertão, temos Riobaldo que fala para um ouvinte invisível, em um fluxo que mescla memória, reflexão filosófica e narrativa de ação, em Garupa temos o motoboy que fala para um “doutor” (um psicólogo?), em um fluxo caótico que vai do trauma à poesia, da violência à transcendência.


A questão da representação da linguagem pode ainda ir ao encontro da afirmação identitária; a linguagem é ato de resistência nestes autores. Rosa elevou a fala do sertanejo à categoria de literatura universal, dando dignidade estética a uma forma de expressão marginalizada. Zarvos incorpora a linguagem das periferias, do funk, da prostituição, da rua – vozes ainda excluídas do cânone literário.


Quando se trata de falar de voz, não se pode deixar de lado a quebra de linearidade e de hierarquia de registros. Ambos os autores misturam registros eruditos e populares, sagrados e profanos. Se Rosa une o regional e o universal, o filosófico e o cotidiano, Zarvos une a violência da rua com a delicadeza da poesia, o pornográfico com o espiritual, o marginal com o literário.


Como em qualquer escrita literária, há algo de performático nisso. Tanto Guimarães Rosa quanto Guilherme Zarvos usam a linguagem não como meio, mas como fim em si mesma – como território de invenção, resistência e busca de significado. Neles o ato de escrever justifica a poesia.

 

Performance no corpo do texto: body corpo


Em alguma medida a escrita de Guilherme Zarvos é uma performance. Tomo o conceito de performance do ponto de vista artístico – a prática em que um artista realiza ações para uma audiência em um tempo e espaço específicos, na qual o seu próprio corpo é meio e suporte de comunicação. A performance é, frequentemente, interativa e está em contraste com formas mais estáticas como a pintura ou a escultura. Uma performance pode questionar a realidade, valores sociais e a própria natureza da arte, promovendo um engajamento direto com o público, com o espaço e com o tempo. Ora, a prosa do texto de Zarvos não é apenas descritiva; ela é um ato em si mesma. Em uma performance, o corpo do artista é o meio principal. Em Zarvos, a linguagem é esse corpo. Constata-se a performance textual de Zarvos, por exemplo, na fisicalidade de palavras como “cuzão”, “pica”, “porra”, “cusparada”, “mijo” que não são apenas tabus, mas atores físicos no texto. Elas chacoalham a pessoa que lê, provocando reações viscerais de repulsa, desconforto ou reconhecimento. Em Garupa, o texto é ferida-fluido: a narrativa escorre como um fluido corporal – sangue, sêmen, vômito, suor. A fala é jorro incontrolável, uma compulsão, que faz lembrar alguma performance de Chris Burden ou Marina Abramović, em que testam os limites físicos do corpo. O narrador não “conta” sua história; ele a expele.


Assim como os happenings dos anos 1960, a narrativa de Zarvos tem uma qualidade turbilhonante e não linear. O narrador salta de um assalto à lembrança de um circo, de um coroa metaleiro à violência sexual contra o parceiro, de um livro de poesia a uma cena de sexo explícito. Essa colagem abrupta parece extraída da estrutura de um happening, onde eventos aparentemente desconexos se chocam para criar um significado novo e imprevisível. O texto não oferece um caminho passivo. Quem o lê é lançado dentro desse turbilhão e obrigado a montar os fragmentos, a sentir a confusão e a vertigem, assim como o público de um happening era parte integrante e ativa da obra.


Em uma justaposição de registros diferentes, como já mencionado, (o relato criminal, a poesia, a conversa de WhatsApp, o delírio psicótico), o texto é também escultórico, constrói significado através da fricção entre materiais linguísticos heterogêneos e cria um ritmo alucinatório, imersivo, que arrasta quem lê para o estado mental alterado do narrador. Este, por sua vez, performa papéis: o bandido, o garoto de programa, o dominador sexual, o filho, o poeta. Essa repetição de máscaras também pode ser tomada como um ato performático de construção (e desconstrução) de si. O texto de Zarvos é um confronto. Ele desafia a sensibilidade e a moralidade de quem o lê. Ele força uma reação: parar de ler, chocar-se, identificar-se, sentir-se incomodado. O que seria essa relação tensa e ativa senão profundamente performática?


A escrita de Guilherme Zarvos em Garupa da Ladeira transborda os limites convencionais da literatura para operar como uma ação no mundo, usando a linguagem como corpo. O texto não representa uma performance; ele é a performance. Ele existe menos como um objeto a ser interpretado e mais como um ato a ser experienciado, imprimindo sensações no leitor, tal qual a arte performática mais impactante. O que se passa no corpo do texto, passa na cabeça. Eita ferro! Fui atravessado pela voz de Arnaldo Antunes...


what happens in the eye / o que passa no olho

goes through your head / passa na cabeça

what happens on the arm / o que passa no braço

goes through your head / passa na cabeça

what happens on the leg / o que passa na perna

goes through your head / passa na cabeça

what happens on your skin / o que passa na pele

goes through your head / passa na cabeça

boby body body body body body body

corpo corpo corpo corpo corpo


Em Garupa, palavra é língua de dois gumes


Zarvos constrói uma narrativa que lembra o cut-up, técnica de William Burroughs, em que fragmentos de memória, delírio e realidade se misturam sem linearidade. Para retinas mais sensíveis, a linguagem pode parecer agressiva: dá duas ou três bordoadas na cara da pessoa leitora. Aproxima-se, assim, do trabalho de Ferréz, em Capão Pecado, que também explora a crueza da existência periférica. A falta de pontuação convencional e os saltos abruptos entre cenas lembram ainda o fluxo de consciência em James Joyce. A escrita de Garupa da ladeira é cavalo de aço no grau. É uma cento e sessentinha neutrada, já de Km, no controle. Seu piloto, com pé no estribo, arrasta a mão no chão, s.e.m  d.a.r  b.a.l.d.e!

Garupa da ladeira é livro que surge como um ato de sobrevivência, uma forma de resistência linguística. Que seja dito: a violência do texto não é gratuita; é ferramenta de sobrevivência. Afinal, em Garupa a palavra é uma língua de dois gumes, é facão de Ogum, que abre veredas no mato fechado da literatura. Zarvos forja uma poética do confronto, onde a beleza reside justamente na sua capacidade de cortar, de incomodar, de não deixar pessoa leitora sair ilesa. Garupa da Ladeira [GLS para motoboys], com suas subidas e descidas narrativas, suas ladeiras metafóricas e literais, evoca a energia de Ogum como força que permite a travessia dos espaços mais desafiadores, abrindo caminhos onde antes só havia obstáculos. Não há pedido de licença: ele invade, fere e marca. E, como Ogum, o texto não oferece respostas – apenas a certeza de que a luta, seja ela literária ou existencial, é inevitável.

 

Zarvoleta, nosso relíquia,

tu é brabo! as menozada fica como?

 

Hoje é terça e Ogum está de honda.

Quem vem na Garupa?


Edmar Guirra para A bobina


[1] Aquele à margem ou fora do lugar. Para o conceito de paratopia, remeto aos estudos de Dominique Maingueneau. Em Discurso Literário, o linguista compreende que a paratopia só existe se integrada a um processo criador. Para ele, o escritor é alguém que não tem um lugar/uma razão de ser e que deve construir território por meio dessa mesma falha. Maingueneau explica que não se trata de uma espécie de centauro que tem uma parte de si mergulhada no peso social e outra, mais nobre, voltada para as estrelas, mas alguém cuja enunciação se constitui através da própria impossibilidade de atribuir a si um verdadeiro lugar, que alimenta sua criação do caráter radicalmente problemático de seu próprio pertencimento ao campo da literatura e à sociedade. Por meio de sua obra, o escritor gerencia essa posição insustentável, seguindo as regras de uma economia paradoxal em que se tem de, em um mesmo movimento, reduzir e preservar uma exclusão que é conteúdo e motor de sua criação. Cf. MAINGUENEAU, Dominique. Discurso Literário. [Trad. Adail Sobral]. São Paulo: Contexto, 2006, p. 108-109.

[2] REZENDE, Renato. Guilherme Zarvos: poesia e política. In: ZARVOS, Guilherme. Guilherme Zarvos / por Renato Rezende. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010, p.21.

 

 

Comentários


bottom of page