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As coisas ficam maiores à distância



 

A ficção científica da memória

 

Todos os anos milhões de turistas vão à Índia para visitar o Taj Mahal e sempre narram a mesma surpresa: o monumento parece crescer conforme nos afastamos. Em Novos amigos, Mabel lança mão dos mesmos artifícios da ilusão de ótica para tratar o luto quando nos convida a olhar para as pessoas distantes, as que colecionávamos na infância e por lá ficaram, como roupas que perdemos.

 

Para recriar no laboratório do poema o efeito experimentado pelos turistas, Mabel inclui na equação o fator tempo: Se estivéssemos em uma galáxia vizinha e apontássemos um supertelescópio para a Terra, veríamos dinossauros passeando por sobre onde hoje ficam nossas casas. Sendo assim, tomar distância é uma das maneiras de visitar o passado, e voltar ao passado é uma das maneiras de trazer de volta ao presente aqueles que já não estão mais conosco.

 

mal sabem eles uma parte

das estrelas que vemos

já morreu há muito tempo

a luz só demora a sumir

(“Previsões”)

 

Mabel lança luz a essas “estrelas mortas” e, (enquanto não se apagam, na distância em que se demoram), aproveita o tempinho a mais de convívio que o delay nos concede. Por isso, os verbos que acompanham o nome daqueles que já se foram permanecem sempre no presente.

 

meu pai chama o carinho

que fazemos nos bichos

de festa ou festinha

[...]

os dedos do meu pai

têm calos e confete

às vezes o bicho sou eu

(“Lembrancinha”)

 

ou

 

andré

 

estranho escrever esse nome

agora com a tinta acabando

(“Seu nome”)

 

A poeta insiste em presentificar pela escrita o nome que já está quase se apagando, grafando-o na tinta rala do pouco que ainda nos sobra. Não exagero ao aproximar estrelas e nossas perdas. É a própria Mabel quem o faz:

 

dentro de uma caixa

sua poeira de estrela

cinza cinza chumbo

passa por entre os dedos

fazendo casa nas conchas

(“Trem das cores”)

 

Nossos mortos não vêm nos visitar. Nós é quem temos que buscá-los. As coisas, quando partem, ficam na verdade estáticas. Nós sim nos movemos – no tempo. A máquina do tempo enfim existe, e é a lembrança. Lá as coisas ficam guardadas, de modo que podemos, quando quisermos, olhá-las uma vez mais.

 

lá em casa é assim

as coisas quebram

nós guardamos

e olhamos pra elas

(“Lembrancinha”)

 

E nessa sua máquina do tempo particular, a poeta se arremessa à infância, e por uma questão de verossimilhança não retorna de todo infantil, é antes uma adulta num corpo miúdo. Por isso sua voz é marcada por risadinhas mafiosas, por uma lábia de criança: metade riso e inocência, metade malícia e um pouco de maldade. Vocês podem notar que essa ruptura, em que coexistem o tempo da infância e da mocidade, é marcada não raras vezes na própria estrutura do poema – cf. a abertura do livro “15 anos, 5 anos”, “um pai uma filha” e “uma filha um pai”.

 

Não são raros hoje em dia os livros de poemas que buscam performar a voz da infância. Poucos porém escapam do idealismo fácil de encará-la como um paraíso etário. Retornando ao passado e presentificando-o no agora, Mabel nos arma um rodeio temporal que eu diria ser o que há de mais exemplar, mais urdido, no livro, bem mais do que quando performa dramaticamente a voz de terceiros, (até mesmo de animais, como cães e trutas). O que diferencia sua dicção é a duplicidade vocal infanto-juvenil, (no sentido estrito), que coexiste em uníssono na garganta dos poemas, porque não abre concessões aos clichês da infância: doçura, meiguice, pelúcia. Seu tom, naquilo que alterna e modula, tem por recheio o palavrão, o sexual, a gíria, quando diz maldade em um estado de espírito que parece anterior ao mal.

 

Num dia se está pulando na cama, comendo baton, no outro se está chegando tarde da noite em casa, com o batom borrado na boca e um chupão tatuado no pescoço. Entre um dia e outro, transcorreu apenas o curto tempo de uma estrofe. E às vezes esse fenômeno não se dá de maneira contígua, mas simultânea.

 

Teoria da relatividade geral

 

É como se na ficção científica de retornar ao passado algo se deformasse, ou melhor, se adulterasse. Não só a voz alterna entre o agudo pueril e a gravidade da mocice, todo o corpo se reelabora em novas medidas de grandeza – como diz a epígrafe de “Canivete de feira”, “Quem é que pode ser gigante / nesse mundo tão pequeno” (Rita Lee). Tudo o que temos são miniaturas: os mininavios, os micropalhaços; os minibalões, os microdançarinos. Mesmo os livros também se misturam em seus novos tamanhos, em que a alta e a baixa literatura ocupam a mesma estante. Voltaire e Aristóteles convivem na mesma estante de Peter Pan, Os meninos da Rua Paulo, Contos dos irmãos Grimm. E assim como essas antigas histórias foram narradas pelo pai na infância, a poeta nos renarra, mas incluindo o pai e a si mesma como atores que encenam o enredo, como num dos poemas mais emocionantes do conjunto, que começa:

 

tem esse menino

que nunca cresce

e essa menina

que em algum momento

vai se despedir dele

 

e mais a frente:

 

[...] e o menino não

não entende porque não cresce

e ela vai repetir e acenar

tá na hora de ir embora, pai

(“Peter e Wendy”)

 

Aqueles que morreram não crescem, a não ser em nós. Nós é que vamos diminuindo, vamos tomando distância, pedalando, nos desfazendo das rodinhas que nos mantinham sempre por perto dos membros de uma família que se desmembrou em parte, mas que ainda fazemos questão de relembrar, mesmo que numa pequena e última cerimônia de despedida:

 

erguidas de vez as rodinhas

busco meu pai por cima do ombro

no que vejo vovó

tamanho playmobil

acenando

acenando

acenando

(“Filezinho”)

 

E olha que curioso. Tudo parece ter sido devidamente coreografado. Até mesmo dentre os elementos paratextuais podemos observar esse fato. Veja a foto da orelha, em que a poeta parece desmedida, gigante, quando comparada à casa da infância. Foi se afastando daqueles que acenavam, acenavam, acenavam e chegou até nós, seus amigos.

 

 

Em Novos amigos, Mabel trata a memória como se fosse um tema de ficção científica. O tempo se dilata sob o campo gravitacional de objetos massivos: a morte, o luto, a infância, o amadurecimento. O espaço, nessa amálgama, se contrai e se confundem o alto e o baixo, a criança e o adulto, o gigante e o pequeno. E tudo que dizemos na desértica ilha de edição da memória produz ecos: “no cemitério / tério tério tério”, “brancas na boca / oca oca oca” (“Trem das cores”); “me dizem e eu choro choro muito”, “e nós rimos rimos muito”; “fica cada vez mais difícil ter um corpo / e ter um pai fica cada vez mais difícil” (“Diário”), nesse recurso que imprime tanta expressividade e ênfase aos versos, ao mesmo tempo que, pela repetição, acusa o trauma do discurso.

 

Óculos para longe

 

É difícil observar todas essas distorções da natureza sem os instrumentos adequados que auxiliem numa maior definição ótica. Se você reparar, o livro está cheio deles: óculos, lunetas, telescópios, até mesmo bússolas e letras legíveis nos são de grande ajuda para uma melhor localização das coisas e de nós mesmos entre elas.

 

A dificuldade de visibilidade nesse ambiente inóspito e opaco da memória é grande. A necessidade de óculos, aliás, é o que há em comum entre Mabel e seus amigos: “sempre de óculos / como eu” (“Meu amigo”). É pela estreiteza de visão que nos estreitamos, que nos aproximamos uns dos outros:

 

a noite vem devagar e hoje

eu e você

vamos nos ver de perto

(“Acampar”)

 

e mesmo que a noite leve de nossos olhos seus espólios, conseguimos guardar ainda uns pedaços, uns restinhos, dos rostos que nos cercam:

 

sou silêncio mal

te vejo

só pedaços

(“Acampar”)

 

O poema que mais deflagra esse fenômeno é “Sem óculos”, que faço questão de apresentar na íntegra:

 

SEM ÓCULOS

 

muitas pessoas parecem uma só

e se parecem se parecem as pessoas

um colega com uma tia

um aluno com um vizinho

nossas avós nossos irmãos

 

não fosse a cor os semáforos

também se pareceriam

pois brilham igual apagam

 

eu e você como a imagem

de um espelho e números

de ônibus todos idênticos

as folhas das árvores uma só copa

 

e na copa do mundo

os jogadores já iguais

apenas correm por aí

a bola não existe mais

 

mas sobretudo os rostos

e quando no mercado

abraço o açougueiro

espero que ele diga “quanto

tempo” e que seja o meu pai

 

Para enxergar quem está aqui, entre nós, perto da gente, um par de óculos pode às vezes dar uma mãozinha. Mas para ver de longe, aqueles que já se foram, é o oposto. Talvez nesse caso seja melhor não tê-los, porque é com a vista esfumaçada que encontramos nossos fantasmas. Os fantasmas sim, que usem suas lunetas, seu arsenal de ilusões e instrumentos de ótica, porque quando não utilizam não sabemos se somos ainda capazes de reconhecê-los; porque “quando tira os óculos meu pai é outro” (“Canivete de feira”).


Fica mais um pouco

 

Sabe quem mais usa óculos? elefantes.

 

ele me pergunta por que

o elefante usa óculos vermelhos?

pra ver-melhor

por que o elefante usa óculos verdes?

pra ver-de-longe

por que o elefante usa óculos marrons?

pra ver marr ou

menos

(“Canivete de feira”)

 

Em seu Abecedário, Gilles Deleuze nos dá uma boa definição da amizade: “ser amigo é ver a pessoa e pensar: ‘o que vai nos fazer rir hoje? O que nos faz rir no meio de todas essas catástrofes?’". E assim Mabel nos armou um livro cheio de piadas, nos dizendo coisas muito tristes sorrindo, maliciosamente, querendo vez ou outra nos arrancar uma risada. E por isso usa de todas suas artimanhas, toda sua lábia, para falsificar o horóscopo, “peixes – continue a nadar / aquário – nada a declarar” (“Previsões”); para sacanear o primo Brás “a piada preferida na estrada / cuidado! / obrás na pista (“Carta ao primo Brás”). Mabel na verdade quer nos entreter, nos fazer ficar, quer ser uma boa companhia. Quando, ao final, entendemos que seu repertório de trocadilhos serve a tal propósito, nos arranca uma lágrima dura e sincera.

 

faço novos amigos

e tenho muito medo

de perder um por um

então conto piadas

de vários tipos

aos novos amigos

elefante

pontinho

toc toc

vai ver rindo

permanecem

por aqui

(“Seguro”)

 

07.10.2025. 00h44.

Lucas ferreira para A bobina

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