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Bolsos, mochilas, fortes em miniatura: sobre a poesia de Ana Cláudia Romano Ribeiro



N’A canção do entupimento & outros poemas (de amor ciclope pessoas sonho galinha utopia etc), Ana Cláudia Romano Ribeiro reúne uma coleção de alegorias em soltura. O tom geral deste livro é alegre, de uma alegria afim à iridescência, à filigrana, às múltiplas encapsulações de panoramas no interior de esferas de vidro, miríades sem fim. Alegorias alegres, em plural expansividade: por elas faz-se recorrente, nesta obra, a figuração dos bolsos. Em “vestiu-se de bolsos”, diz a poeta: “cor de pernas que vão sozinhas ao entardecer / soando profusão, soando águas de lava, soando sol / um gosto de sol e cheiro de tesouro da juventude / enciclopédia macia de afundar sempre-vivas”.  “Te quiero no bolso e foi / abriu valas e telefonemas pra ela / encontre-me nos trilhos / disse o metrô, disse a esquina [...]”, lemos em “entre uma carta e outra”.


Para quem cultiva afavelmente os fragmentos, o bolso é a extensão da casa. É o mundo involucral que comporta o item aurático, o objetinho a ser salvo. Amar os bolsos é amar as miniaturas, e miniaturizar é tornar portátil, e a tudo tornar portátil é o imperativo categórico de quem se vê migrando, ou ainda escrevendo, ou viajando sem destino, ou de quem se refugia. Tornar portátil é fundamental àquela pessoa que deposita sua esperança nos papéis levados na pasta, na bolsa, em fichas cuidadosamente enlaçadas, em busca de uma chance, da mão feliz. Susan Sontag, citando o amor de Walter Benjamin por tudo o que era delicadamente pequeno, dos brinquedos às decorações, há muito tempo escreveu sobre isso. São os bolsos uma espécie de utopia.  


Analogamente, este belo livro é prolixo em sua procura por gavetas. Seu próprio título, inusual, traduz um precioso e multifacetado achado de gaveta: mesclas, relíquias fosforescentes, junções surrealistas, deslocamentos. Falemos então sobre as gavetas. Talvez sejam as gavetas os fósseis dos bolsinhos esvoaçantes, ou dos ultrassecretos, costurados junto ao coração. Bolsos em ruínas, que já não se movem. Talvez, pelo contrário, sejam as gavetas uns enraizamentos bem mais felizes do que os bolsos jamais o foram. Bolsos tornados fortalezas. Será que dentro das gavetas ficam mais contentes todas as chaves, bibelôs e papéis que se amaram de verdade, os reencontros e os resvalares? “[D]entro das soleiras nas gavetas embaixo do tapete lá onde / estão as antenas / gavinhas raízes áereas usocapião trincalhos raízes”. Dos bolsos e das gavetas brotam, seja como for, os tempos redescobertos: “e brotam tantas espécies que você seria incapaz de contar”. Voláteis, esses aljôfares quase invisíveis cintilam e ganham os ares. Repõem em luz os pedaços reencantados da casa que um dia despencou, e os quais agora reaparecem: “escombrofica [...] brotam tantas espécies”.


Ainda uma palavra sobre estes versos. Das tantas preocupações sonoras deste livro, de seu imenso capricho recitativo, temos aqui um exemplo. Nos versos que cito acima, longa e acelerada é a unidade que significa a busca, o ansioso revirar. Súbita e docemente esse ritmo se interrompe, e estanca num verso em miniatura: “estão as antenas”. Ritmicamente, ei-la então, a marcação da espera e da perda, por um lado, e a marcação dos achados, por outro, em levas de reaparição, de surpresa em suspensão:


se teias e pequenas tocas cobrem as janelas

se as árvores crescem perto da casa, se há entupimento da

tubulação

se abacates e mangas são lançados sobre as telhas que você

encontra aos pedaços

espalhados pelo quintal

se dentro de casa o teto começa a mofar

se à noite você ouve ruídos roendo dentro das paredes

dentro dos móveis

roendo no chão da casa nas vigas nas escadas

até na máquina de lavar

se no muro pousa um pássaro e diz passais

e a casa despenca

mas escombrofica

como é que ela não fala?

 

e brotam tantas espécies que você seria incapaz de contar

dentro das gavetas nas soleiras embaixo do tapete lá onde

estão as antenas

gavinhas raízes aéreas usocapião trincalhos lilases

[...]


Muito ainda deveria ser dito. Correlatas às gavetas e aos bolsos são as alegorias das tapeçarias. Quem ama o reino do que se leva, do que se salva, ama as iluminuras, as cidadezinhas no canto dos livros, os emblemas, os rébus, os brasões de mentira, os motivos das tapeçarias, os horti conclusi, as muralhas de pano, cabanas e guaritas colóreas, blasonadas, as quais esperam da poeta que as reencontre para além do labirinto soterrado, e que as desencapsule, revelando sua condição utópica, através do jogo do olhar e da voz alta em declamação. Afinal, escondidas no velho tomo de Morus, estão as horas ao contrário. Ou seja, no detalhe, ou melhor, no detalhezinho, está o passado percebido como bruluxeio, e coletado, com afeição e delicadeza, desde montanha de ruínas: “e no livro dois, uns motivos de tapeçaria: um cão / persegue uma lebre / um cão persegue outro cão, um / cão desmembra uma lebre. A hora corre de ré”.

 

Ao longo desses poemas, as mochilas e as bagagens – as irmãs dos bolsos, das gavetas, das iluminuras e das tapeçarias filigranadas – têm alma, âmago e lastro, igualmente: “olhar o abismo / e flutuar / com uma escrivaninha na mochila”. Elas põem-se em marcha rumo a grandes aventuras, ou delas retornam: “dentro da mala a pequena viagem / apita o ponto da pausa / a cidade não pesa, o prédio fala / venha a mim, primavera, venha a mim”. Estas línguas outras, das coisas, das plantas e dos animais engraçados, não seriam a própria língua de outro mundo, aquela comunicação, mais uma vez, que inere ao tempo redescoberto? Que inere a um pássaro dizendo “passais”, e à música, quem sabe, de “umas teclas que ela toca com os ísquios”?


Todos esses reencantamentos, sua força, melodia e frequência, todos os fragmentos que os compõem, auraticamente, não podem cair. Devem, por isso, caber. Devem levar-se como leváveis, suaves e fulgorosos, nas palmas mãos, ou nos tesouros sob a axila, ou protegidos por alças quádruplas, ou segredados no coração da pochete. Nesses lugares precisos estão todas as coisas que às nucas das ruínas, secretamente, ainda as podem ruborizar. Com elas, foge-se da morte e do esquecimento, nova vez. Através delas, das ramarias em floração, dos muitos entalhes de sóis desenhados, sob a viração, encontra-se um outro tempo, e se o encontra bem. Fuga da morte, tempo redescoberto: Clarice Caolha – contraponto ao ciclope, ao minotauro? – alegoriza-o graciosamente.

Gabriel Morais Medeiros para A bobina


 

 

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