Instruções para ler um poema (3)
- Lucas ferreira
- há 1 dia
- 4 min de leitura

O leitor imperfeito
“A má compreensão e o contrassenso, afirmava Richards,
não são acidentes mas, ao contrário, constituem
o normal e provável das coisas na leitura de um poema.
A leitura, em geral, fracassa diante do texto.”
Antoine Compagnon
Quando falamos do leitor na verdade estamos falando do arquileitor, uma criatura abstrata e perfeita. Para além da teoria da leitura, existem os leitores, essas criaturas reais e, portanto, específicas, que servem para designar a mim e a você de diferentes maneiras. O que nos diferencia do arquileitor é na verdade a natureza do texto, que invariavelmente nos confronta não somente com a compreensão, mas com a má compreensão.
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Você pode fazer da má leitura um método rigoroso.
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Tive um amigo que lia a Ilíada uma vez por ano. Na quinta releitura decidiu que anotaria o placar de soldados mortos pelos gregos e pelos troianos. A marginália da sua edição era cheia de anotações do gênero “143 x 95”. Levou a leitura a cabo, e ao final pôde concluir com muito rigor que, sim, os gregos venciam a guerra.
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Como projeto de pesquisa Adam Gordon decide se valer de seu espanhol rudimentar para traduzir Garcia Lorca. Ele se propõe fazer uma má tradução, se apropriando de falsos cognatos e de semelhanças sonoras entre sua língua e a de Lorca. Há algo nesse relato que me interessa. Dentre os conselhos que poetas mais experientes dão aos mais jovens, o mais comum talvez seja “traduza”, porque traduzir é ler com atenção; é entender melhor a maquinaria do poema. Adam Gordon parece dizer da natureza intrinsecamente incompreensível do poema, que nos escapa das mãos, não nos importa a língua que nossas mãos dominam. Mesmo que nos seja quase por completo desconhecida, algo permanece, se apreende. Ou seja, Adam Gordon parece dizer da natureza compreensível de qualquer poema. Curiosamente, há algo nessa história que parece revelar uma espécie de fraude da linguagem poética.
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Décio Pignatari virou alvo de riso quando analisou “Áporo”, de Drummond. Havia um erro tipográfico na sua edição de A rosa do povo. O verso “o áporo perfuma a terra”, era na verdade “o áporo perfura a terra”. Décio passou alguns parágrafos dissertando sobre o ato de perfumar. Não entendo porque riram dele. Ele provou o ponto de que pelo visto os poemas aceitam tudo. Parecem amantes.
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A má leitura é também uma arma política. Reis e imperadores sabiam disso muito bem e por vezes utilizavam vaticínios como prescrição para a vitória em batalhas, para um milagre econômico, para legitimação de um trono. Mas talvez a precognição mais curiosa e inesperada tenha sido protagonizada no século IV da nossa Era, por Constantino, imperador Romano. A fim de converter pagãos ao cristianismo, o imperador discursou uma écloga de Virgílio como se fosse uma profecia do nascimento de Cristo. Os pagãos seriam convencidos mais facilmente por um poeta pagão.
Durante os séculos seguintes, dois livros eram as principais fontes de adivinhação: A Bíblia, no que ficou conhecida como “cleromancia dos evangelhos”; e a Eneida, cujo método divinatório era chamado de “sortes Vergilianae”. Abria-se o poema ao acaso a fim de extrair dali a resposta para uma inquietação. “Devo me casar?”, “devo saquear a cidadela da outra margem do riacho?”, “devo apostar minhas fichas no gladiador ou no hipopótamo?”. As respostas estavam todas, estáveis e pré-fabricadas, em uma página aleatória do grande poema de Virgílio.
Constantino, o Grande talvez tenha sido o primeiro imperador a vislumbrar na poesia um discurso poderoso o suficiente para modificar o futuro, pois um erro intencional de leitura foi usado por ele como uma arma de convencimento.
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A ditadura civil-militar que ocorreu no Brasil forjou toda uma geração de cancionistas que compunham canções-duplas, uma destinada ao público, outra destinada aos censores. A que se destinava aos censores normalmente era uma simples canção amorosa, a que se destinava ao público versava, de modo cifrado, sobre a resistência política e artística. Uma canção, uma vingança.
O departamento de censura foi por terra abaixo. Ainda assim, restou o procedimento poético. Na esteira dessa tradição, Caetano em 2021 cantou “Não vou deixar”, não exatamente para a mulher amada, mas para o então presidente Jair Bolsonaro.
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Os contos de Edgar Allan Poe na tradução de Borges têm em média a metade do tamanho original. Borges era um leitor armado de tesouras.
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Mário Cesariny traduziu Une saison en enfer, de Rimbaud, como Uma cerveja no inferno, porque à época havia, e ainda há, na Bélgica um estilo de cerveja chamada Saison.
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Ezra Pound traduziu a poesia clássica chinesa sem saber muito bem chinês. O sinólogo George Kennedy considerou a tradução “fine poetry”, mas “undoubtedly it is bad translation.”
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A famosa escultura de Moisés criada por Michelangelo apresenta o personagem com chifres devido a uma interpretação incorreta de um trecho bíblico. No livro do Êxodo, o termo hebraico qaran, usado para descrever o rosto de Moisés ao descer do Monte Sinai, pode ser entendido tanto como "com chifres" quanto como "radiante" ou "emitindo raios de luz". São Jerônimo, ao traduzir a Bíblia para o latim (Vulgata), escolheu a versão "com chifres", o que acabou influenciando a iconografia cristã.

Lucas ferreira para o blog da escola




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