Três poetas no carnaval
- Rafael Zacca
- há 1 dia
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Vocês conhecem a carta de Mario de Andrade, endereçada a Manuel Bandeira em fevereiro de 1923, em que ele fala sobre o carnaval carioca: “Meu Manuel... Carnaval!... Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia... Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar... Fui ordinaríssimo. Além do mais: uma aventura curiosíssima. Desculpa contar-te toda esta pornografia. Mas... Que delícia, Manuel, o carnaval do Rio!” Mario acabou dedicando a Bandeira os versos do poema “Carnaval carioca”, que publicou em Clã do jabuti, em 1927, onde registra sua “fadiga de gozar”. Mesmo às quatro da manhã da Quarta-Feira de Cinzas, o poeta continua misturado à multidão de foliões:
Nos clubes nas cavernas
Inda se ondula vagamente no maxixe.
Os corpos se unem mais.
Tem cinzas na escureza indecisa da arraiada.
Já é quarta-feira no Passeio Público.
Numa sanha final
Os varredores carnavalizam as brisas da manhã
Com poeiras perfumadas e cromáticas.
Ainda hoje se veem, em fevereiro, essas poeiras perfumadas e cromáticas. Às vezes fora de época também. E existem muitos carnavais no carnaval. Um deles é o da dissolução, que Mario parece ter experimentado. Você entra numa multidão de foliões que cantam em uníssono, na alegria de se perderem a si mesmos – uma orgia, um bacanal, com ou sem sexo, com ou sem tristeza, com ou sem alegria, mas num furor que destrói as fronteiras que separam o eu do mundo.
É o humor a causa dessa autodestruição. E então a fantasia entra em cena, fabricando um novo eu, provisório e tão ridículo como o anterior, com uma afirmação da vida que é amor incondicional à vida. E as pontas que mantínhamos separadas antes – vida e morte, eu e outro, singular e plural, único e múltiplo – se confundem ondulando vagamente no maxixe, no samba, no maracatu, no afoxé, no funk.
Mas, como eu disse, existem muitos carnavais no carnaval. Na Zona Norte do Rio de Janeiro, quando eu tinha sete ou oito anos, eu saía com uma pequena fantasia de bate-bola na rua, excitado com a possibilidade de assustar outras crianças. Só que eu era tímido, e bater com aquela bola no chão até que outra criança se sobressaltasse também me assustava. Então eu ficava ali dentro, passando calor, e vendo o mundo com um pequeno filtro – um tecido de nylon – entre as coisas e meu rosto, a tal da máscara de bate-bola.
Na rua, comia churros com doce de leite, carne seca com mandioca, cachorro-quente. Jogava espuma nas outras pessoas e às vezes estalinhos com um pouco de pólvora. Na Rua Dias da Cruz instalavam brinquedos para as crianças, como o pula-pula, e palcos onde se escutavam músicas obscenas, mas que não entendíamos direito. Os adultos tomavam muita cerveja e os adolescentes cheiravam alguma coisa que espirravam na roupa. No passado, lança-perfume; na minha época, loló.
Depois, voltávamos pra casa e víamos o desfile pela televisão. E aguardávamos ansiosamente pela apuração dos votos. A melancolia era a minha namorada de carnaval. Eu torcia pela Mocidade Independente de Padre Miguel e pelo Botafogo, e era muito difícil que eles ganhassem alguma coisa. Talvez por isso esses dois eventos, futebol e carnaval, tenham sempre tido certo gosto de derrota pra mim. O meu carnaval é difícil. Eu não experimento o deleite de Mario de Andrade, não no carnaval. Já tive os meus momentos de dissolução. Mas não assim.
Existem muitos carnavais no carnaval. Em 1919 Bandeira tinha publicado seu próprio Carnaval. A conversa entre Bandeira e Mario, que se estabelecia entre cartas, era também literária, entre poemas. Mas falando em melancolia, embora Bandeira seja muito triste, o seu carnaval é também uma afirmação da vida. Ele começa com um poema chamado “Bacanal”, com evoés destinados a Baco, Momo e Vênus, e em cujo louvor ele faz os seus “versos obscenos”. Depois, um desfile, um baile de máscaras: dançam, nesse livro, muitos pierrôs, pierrettes, arlequins e arlequinas, e alguns deuses pagãos também, que figuram como protagonistas das pequenas histórias.
Qual é o papel da tristeza aqui? Certo sentimento trágico, talvez. Aquela exigência que Nietzsche percebia nos rituais dionisíacos gregos, que reconheciam que a vida é também miserável, e só através dessa afirmação é que podiam inventar (ou fantasiar) uma vida que valia a pena ser vivida. Sem negar a tristeza, fabricar a alegria. Temos “A canção das lágrimas de Pierrot”, em que o palhaço canta que “em vão pela noite fria / devasta o meu alaúde”. E tem a “Vulgívaga” que diz:
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Esperar do amor apenas um gozo físico, e não espiritual, faz parte da atmosfera antiplatônica dos versos de Bandeira, e não apenas da personagem meretriz que canta no poema. “Se queres sentir a felicidade de amar”, o poeta aconselhará mais tarde em Belo belo (1948), “esquece a tua alma”. “As almas são incomunicáveis”, ele explica. “Os corpos se entendem, mas as almas não.”
Um pouco mais de dez anos depois da carta de Mario a Bandeira, Drummond publica Brejo das almas, em que podemos ler o poema “Um homem e seu carnaval”. E como é difícil o seu carnaval.
Um homem e seu carnaval
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
é dentro do peito,
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
Reparem como o primeiro verso equipara o poeta a Cristo: “Deus me abandonou”. Isso já tinha acontecido antes, no “Poema das sete faces”, publicado em Alguma poesia (1930), quando Drummond se perguntou “meu Deus, por que me abandonaste”. Como Mario, o poeta experimenta uma dissolução do eu – mas essa dissolução não vem acompanhada de um deleite. Sem olhos, sem boca e sem dimensões, o poeta está perdido em meio a orgia e fitas. Cores e barulhos ferem seu corpo “de raspão”, feito projéteis.
O poeta, apesar da dissolução, não encontra comunhão. Está sozinho. O coração bate num ritmo impossível, mas ninguém percebe, como lemos na segunda estrofe. Preso em si mesmo, não se livra também do ressentimento. E acompanha o desfile de “eternas namoradas” que mostram os dentes – ao mesmo tempo um sorriso e uma ameaça.
A terceira estrofe termina com um naufrágio. No rio em que afunda há peixes que são de enxofre. Os “grandes abraços” que recebe “eternamente” não são acompanhados de “vivas” ou exclamações de gozo como a de seus outros amigos poetas. O inferno que encontramos nesse poema não é o da luxúria.
Em “Desejos tortos”, ensaio de Alcides Villaça para uma edição recente de Brejo das almas, leio que Drummond escrevera em 1931 uma carta a Alceu Amoroso Lima, em que confessava: “Aprendi desde cedo a viver para dentro, construindo o meu mundo porque não me adaptava ao de fora.”
Esse auto aprisionamento de Drummond era uma das condições de sua poesia. Esse é o fundamento da emoção que nos toma quando o poeta consegue, a muito custo, estender as mãos para fora de sua gaiola para tocar outra mão, que não compreende, que não assimila, mas que, ainda assim, roça por um instante. Essa clausura é o que a doença era para Bandeira: os dois, de inclinação metafísica, são impelidos à força para o mundo do corpo e das coisas. Para Bandeira, diante da doença, só resta tocar um tango argentino, o que lhe rende uma tristeza muito bem-humorada. Para Drummond, resta aguardar a flor feia que brotará do asfalto.
Essa espera às vezes resulta num bom encontro. Às vezes, lhe deixa numa espécie de limbo, como se a criatura mais frágil que existe habitasse o mundo desolado de Esperando Godot de Beckett. Essa desolação ressoa em Brejo das almas. Título, aliás, que (além de aludir à cidade mineira que teria seu nome alterado à época porque, conforme lemos na epígrafe, Brejo das Almas “nada significa e nenhuma justificativa oferece”) transmite certa imobilidade do espírito.
Drummond não consegue sustentar o passo uníssono da comunidade. Por isso a sua dissolução não o impele a se tornar um com ela. O passo continua torto, nunca entra no ritmo certo.
Nem o carnaval nem a poesia salvam Drummond de sua gaiola. Nenhum dos dois o cura de sua condição de gauche e de indivíduo. No carnaval a dissolução não o une aos outros; com a poesia, ele não se faz entender. Resta então a espera. Pela flor, como veremos alguns anos depois em A rosa do povo, ou pelo apocalipse, como no poema “Segredo” de Brejo das almas, com o qual nos despedimos de nossos pequenos carnavais:
A poesia é incomunicável.
Fique quieto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.





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