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Instruções para ler um poema (2)



O eterno retorno da releitura

 

 

“Qual livro você levaria para a ilha deserta?” Pessoas de espírito prático costumam responder Manual de sobrevivência da ilha deserta, Guia prático para construir jangadas, dentre outros livros que, sem autoria determinada, são mais hipotéticos que a pergunta.

 

Já as pessoas de espírito puro costumam ruminar a resposta, porque não se decidem entre Divina Comédia, Em busca do tempo perdido ou Dom Quixote. Para eles, a ilha deserta não é um problema do qual pretendem escapar. Pelo contrário, é as férias que tanto sonharam. O que lhes perturba não é como sobreviver entre animais selvagens, a fome, o frio; e sim, como escolher um único livro dentre tantos outros sacrificados.

 

Por fim escolhem “o livro que eu poderia ler até o fim dos meus dias”, porque sabem muito bem que não possuem meios práticos de um dia abandonar a ilha. Suas escolhas normalmente se restringem a duas qualidades: 1. são calhamaços 2. são clássicos, porque precisam ocupar o tempo e precisam que a leitura seja inesgotável. É sobre esse segundo ponto que quero fixar minha atenção, e quero adicionar à pergunta hipotética um leitor hipotético que se contentaria não com um livro, mas com um único haicai.

 

O que acontece a um texto quando perscrutado sob uma leitura infinita? No que se transforma quando dedicamos nossa vida a ele? Podemos especular que no poema mínimo esteja condensada toda a literatura e toda a vida de todos, e a decifração do passado junto da predição do futuro. Uma das primeiras lições que aprende o leitor de poesia é que a verdadeira leitura é a releitura; ler sempre 2, 20, 200 vezes o mesmo poema é repetir 2, 20, 200 vezes a mesma pergunta, extraindo respostas diferentes a cada uma delas. Ler de novo é ler melhor.

 

 

2.

 

 

A releitura evidencia o caráter prismático do texto. Sempre esteve cifrada no texto os mais diversos significados, nós que não o enxergamos; nos escapava, mesmo que imóvel. O que a releitura dá é uma maior precisão ótica do quase invisível.

 

Mas um fenômeno curioso começa a ocorrer a partir da 500º releitura. Nossa visão começa a embaçar, o arquipélago formado por cada letra do alfabeto começa a perder as fronteiras, as palavras perdem a silhueta, o texto começa a deixar de ser texto e começa a se tornar a própria vida. De repente estamos lendo o que lhe é completamente diverso, que é impossível que esteja sendo dito, mesmo nas camadas mais profundas da significação, porque é impossível que o haicai escrito por um monge japonês do século IV esteja se referindo à cicatriz que você ganhou no joelho quando caiu de patins, ou sobre a sopa que sua mãe fazia quando você fingia que estava doente. É impossível que no haicai que você escolheu ler pelo resto da vida esteja o cheiro dessa sopa, e no entanto está. Acontece que você, com suas sucessivas e incansáveis releituras, passou a ler tão bem o haicai que descobriu que o grau último da boa leitura é a má leitura; é chegado um ponto que de tanto decifrar o texto, o texto inesperadamente, num último golpe, te decifra; um momento que você se torna tão íntimo do que lê, que aquilo que lê, num espelho infinitamente polido, se torna você.

 


Um sinal de =

 

 

“tudo foi um equívoco:

eu supunha que queria ser poeta,

mas no fundo queria ser poema”

Jaime Gil de Biedma

 

 

Um poema parece mais uma pessoa do que uma tesoura. Posso dizer a Maria: “Maria, você vai gostar do José”. Do mesmo modo posso dizer: “Maria, você vai gostar de ‘José’”, porque José e “José” podem conter atributos que agradam Maria; podem ser honestos, bonitos, podem ter olhos verdes e anáforas. Pelo que conheço Maria, é bem possível que goste de anáforas e olhos verdes.

 

Mas a semelhança entre pessoas e poemas não se confere apenas no superficial campo das aparências. Na verdade, é onde menos nos parecemos. É mais profunda e mais triste nossa condição de semelhança. Mas primeiro vamos falar sobre tesouras.

 

Como nascem as tesouras? Simples, nascem da necessidade do corte. Da necessidade de sentar-se, nasceram as cadeiras. Da necessidade de nascer-se nasceram os leitos, a anestesia, o fórceps. Durante muito tempo parecemos tesouras, cadeiras e fórceps. Os gregos antigos acreditavam que nascíamos para cumprir uma enigmática missão no mundo. Éramos felizes quando cumpríamos o compromisso com nosso talento. Primeiro havia a necessidade de ferreiros, atletas, arqueiros, depois nasciam bebês para ocupar seus respectivos ofícios. (Claro que isso trazia alguns problemas. Por exemplo, os gregos acreditavam que um peixe sempre daria à luz necessariamente a um peixe, e não a um barco, uma pinça; mais problemática é a crença que tinham de que certas pessoas nasciam para ser ferreiros, atletas, arqueiros e certas pessoas também nasciam para ser escravizadas. Mas vamos adiante).

 

Mais adiante, pensamos melhor e mudamos de ideia. Nascemos sem pretexto nem propósito, nascemos por ofício de nascer. Primeiro viemos ao mundo, só depois as perguntas: por que?, para onde?. De modo mais simples, primeiro a existência, depois a sobremesa, isso é, a essência.

 

Assim também nascem os poemas. Não haveria necessidade alguma que existissem, mas existem, pelo simples fato de que poderiam existir, mesmo que inúteis, mesmo que não tenham função social, mesmo que jamais sejam lidos, como as pilhas de manuscritos arremessadas no lixo.

 

O leitor mais afeito à inquisição pode nos perguntar “mas e os poemas escritos com finalidade prévia? Aquelas que nasceram para o engajamento político, para o galanteio amoroso, não são poemas?” É claro que são, mesmo que não sejam poemas-puros, são poemas-para. Aliás, muito cuidado. Não se esqueça que os príncipes nascem para ocupar um trono; que herdeiros nascem para herdar heranças. Pois não, príncipes e herdeiros são pessoas.

 

Mas olha o lado bom de não sermos príncipes. Afora essa opção, podemos nos tornar o que quisermos, inclusive poema.

 
 
 

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