Das negatividades do riso

1.
Em contexto colonial, a sátira de Gregório de Matos, destinada às degradações moral e política. No período romântico, a galhofa de Luiz Gama, confrontando as misérias do Império. Na cena modernista, o poema-piada de Oswald de Andrade, surfando na esteira iconoclasta das vanguardas europeias. Em 1975, sob o panorama da ditadura civil-militar, o Cacaso da chamada geração marginal, anotando “o meu amor e eu / nascemos um para o outro // agora só falta quem nos apresente”. A evocação do riso por meio do poema possui lastro na história da literatura brasileira.
A fim de driblar a sisudez retórica do XIX, o humor, junto à simplicidade e ao coloquial, formará uma tríade de artimanhas fulcrais às poéticas do Modernismo brasileiro. Essa postura sarcástica, enquanto dispositivo crítico, será sampleada nos anos 1970, cenário em que o deboche é dirigido à seriedade da censura e ao fervor das perspectivas utópicas das produções vanguardistas.
Essa tríade poderia ser sintetizada na ideia de comunicabilidade. Trata-se de um chamamento à coparticipação leitora, ética posteriormente adotada por outras gerações. Nem sempre, porém, foram levados em conta o contexto de produção desse procedimento e seu gesto crítico. O uso inadequado do humor, da coloquialidade e da simplicidade, em suma, a equivocada adoção e aplicação da comunicabilidade, resultará em projetos nos quais se poderá detectar a) o anseio pela literalidade (apoteose da comunicabilidade) e, talvez em decorrência disso, b) o baixo investimento artesanal.
Essa positivação da escrita, visando tornar viável a realização desse desejo pelo outro (da autoria pela recepção, do autor pelo leitor), distanciada de uma perspectiva alegórica, no que se refere ao processo formal de sua elaboração, dificilmente deixará de desaguar em amenidades do cotidiano e/ou em trivialidades inerentes a empreendimentos narcisistas.
Outra face dessa forma se manifestará assim: a palavra, enquanto apelo moralizante, mobilização de um páthos, ambicionará a identificação, o posicionamento imediato do leitor. Acresce-se a isso o fato de que, em tais produções, frequentemente desobrigadas de maior elaboração formal, o tema constituirá, a priori, um valor.
Não é tarefa laboriosa detectar os sintomas desse horizonte estético: a imagem (a metáfora, o símbolo, o mito, em síntese, qualquer operação imagística que demande desvelamento) colocada à margem; o texto poético como moeda de um só lado; o crescente interesse pela dimensão realista, a paixão pelo “baseado em fatos reais”, a ascensão do paradigma documental; para resumir, a positivação do poema (e da linguagem, e do mundo, e da vida).
2.
Cenas absurdas, medidas disparatadas, comportamentos inesperados. São estes alguns dos procedimentos que desencadeiam humor em Clube dos Membros Fantasmas, estreia de Lucas Ferreira na poesia, pela Edições Macondo. Convém destacar, desde logo, que o principal disparador do riso neste livro é o nonsense, efetuado por meio de diversas artimanhas. Os indícios de quebra de sentido são apresentados já no título da obra, que enuncia certa figuração do imaterial, uma reunião de ausentes. Também na estrutura da coletânea encontraremos esse desvio. Para que se tenha noção, Clube dos Membros Fantasmas é composto por uma segunda e terceira partes, sem que haja, porém, uma primeira seção que integre esta coletânea. Valeria mencionar que “Último poema” é, na verdade, o penúltimo. O que dizer sobre “É pra lá que os barcos vêm”, primeiro verso de “Para onde vêm os barcos”? A desorientação se manifestará ainda em alguns títulos, como é o caso de “Receita para a infelicidade”, “O milagre da multiplicação por 1” e “O início o meio e o início”.
No dia do lançamento de seu livro, Lucas Ferreira expressou a relevância do outro para a realização do fenômeno literário: “Lançar uma nave é menos divertido que lançar um livro. Quando a nave aterrissa em Marte, não há nem um ET pra dizer ‘seja bem-vindo’”. Em outro momento, igualmente humorístico (e absurdo), declarou: “Este livro me deu tudo o que tenho: dinheiro, iate, carros caros, restaurantes e amantes. Mas, sobretudo, amigos”. Essas duas declarações remetem a um ponto fundamental de O riso: ensaio sobre o significado do cômico, escrito por Henri Bergson. Nesse texto, o filósofo identifica na dimensão coletiva do riso uma de suas condições essenciais: “Não desfrutaríamos o cômico se nos sentíssemos isolados. O riso parece precisar de eco”. Esse aspecto relacional do humor é manifestado logo no início do livro, em “Como vim parar aqui”, poema-apresentação da coletânea, embora tenha sido arrastado por um “anjo de músculos / trincados como jarros” até o clube, isto é, embora ali tenha chegado involuntariamente, o sujeito lírico manifesta contentamento pela chegada de novos associados: “agora é bom / estar aqui // com você”. Deixando explícita a negatividade do espaço em que a relação entre esta voz e os novos cúmplices se dará, “Bem-vindo ao clube” dá continuidade a essa busca por comunhão e eco: “Os amores que você perdeu / estão nesse clube / bailam aos sábados / nos braços partidos dos soldados // A alegria que você conquistou / e depois perdeu / é tão transparente quanto / a alegria que você nunca teve”. A impossibilidade de abandonar a associação antes que as histórias narradas e os jogos cômicos terminem é alertada aos recém-chegados: “você fecha uma porta / e outra porta se fecha”. “Você deve estar se perguntando / por que estamos reunidos aqui” (“3 problemas”), prossegue a voz condutora do Clube, e apresenta mais 3 obstáculos ao alocutário: “O problema nº 1 é que a porta está trancada / o problema nº 2 é que engoli a chave / o problema nº 3 é que ao sair por aquela porta você instantaneamente entra num intrincado mecanismo que consiste em te trazer de volta para”. O leitor, ao abrir as páginas deste livro, como os personagens e o anfitrião do Clube, se verá atado a uma atmosfera regida por uma lógica carrolliana, repleta de jogos de linguagem, absurda e nonsense. É como se habitasse um dos episódios do desenho animado Papa-Léguas, em que Wile E. Coyote, após um piano cair sobre sua cabeça ou uma bomba explodir em suas mãos, logo se levanta, incólume, para a próxima peripécia.
O livro de Lucas Ferreira é um espaço de cumplicidade, de partilha de perdas. A esse respeito, vale recordar o que Eucanaã Ferraz escreveu na quarta capa da obra: “Não sei se você sabe, quando a pessoa que sofreu amputação de um membro tem a sensação de que ainda o possui, dá-se a isso o nome de membro fantasma”. As histórias contadas em Clube dos Membros Fantasmas, alerta a voz-guia, em “Anatomia dos fracos”, versam sobre/para os que “cruzam a linha / em último e penúltimo”. Mas não se trata, apesar do tom melancólico, de um livro derrotista. Não analisamos aqui uma obra construída a partir de um olhar desencantado para o mundo. O que nele, sim, há é o riso (metonímia da alegria) ante a perda. Eis o uso de expedientes semânticos díspares, eis o nonsense, o desvio de sentido em sua manifestação central. Eis o procedimento mais forte do livro. Nessa direção, não haverá paradoxo no fato de, apesar do tom jocoso que orienta este trabalho, o leitor encontrar, em muitos dos poemas que ali lerá, além da beleza que acompanha muitos deles, desfechos trágicos. Vejamos como isso se dá em “Eu acredito na delicadeza”: “Eu acredito / na delicadeza / disse o martelo // Eu acredito / em você / disse o prego // As mãos / não disseram / nada // As mãos fizeram / o que tinha / que ser feito”. Bergson, no ensaio atrás citado, dirá: “não há comicidade fora do que é propriamente humano”. O livro de Lucas Ferreira, a partir do poema em questão, construído por meio da prosopopeia (para não perder de vista o “propriamente humano”), e de um sarcasmo cruel, parece galhofar essa característica do humor: “não há tragicidade fora do que é propriamente humano”. Em Clube dos Membros Fantasmas, a união entre o trágico e o jocoso não deixa de suscitar o riso. Sobre essa associação, Bergson também dirá: “o cômico exige algo como certa anestesia momentânea do coração para produzir todo o seu efeito. Ele se destina à inteligência pura”. Como rimos do piano caindo sobre a cabeça de Wile E. Coyote, ao ler Clube dos Membros Fantasmas, riremos das perdas, dos momentos dramáticos e catastróficos ali dados a ver. Ponderemos essa questão a partir de “Sapatos novos”, poema que incorpora a dimensão fabular, por sua vez, gênero em que o impossível tem lugar, senão vejamos: “Era uma vez uma mulher / que tinha peixes / no lugar dos pés”. Uma mulher que “no lugar de meias e sapatos / calçava de repente / aquários”. Na segunda estrofe, uma constatação terrível: “peixes = 2/ pés = 0”. “Sapatos novos” não prescindirá de uma característica marcante dos contos de fada que têm por protagonista personagens mulheres, a experiência amorosa: “Sempre a vejo correndo / à frente de um cardume / de pretendentes”. O paralelo entre a circunstância da personagem deste poema e a de Cinderela é evidente, uma vez que ambas têm no calçado um elemento central de sua realização amorosa. Mas, talvez em razão da situação sinistra em que se encontra a protagonista do poema, o cálculo por ele apresentado é cruel: “pescadores = incontáveis/ amores = 0”. Assim, a vivência erótica presente nesses versos será, como em outros poemas em que essa tópica se repete, contaminada por ventos contrários. Contudo, a mulher com pés de peixe, a despeito de sua condição monstruosa, consegue (de maneira provisória) um amor verdadeiro. Já ao fim da história, o casal, visando a felicidade, outro expediente crucial dos contos de fada, tem o fim mais ambicionado da história da relação amorosa nessas narrativas: “viveram felizes para sempre”. Mas, em Clube dos Membros Fantasmas, após o fim, vem outro fim; após uma porta fechada, outra porta fechada. A felicidade, expressa nessa síntese do júbilo dos cônjuges, arrancaria a mulher monstruosa para fora da situação labiríntica em que se encontra presa, ruindo, com isso, o projeto nonsense de Lucas Ferreira. Para que isso não se dê, um artifício da ficção é quebrado. Em lugar de personagens que passam da infelicidade à felicidade, em Clube dos Membros Fantasmas não se rompe o fluxo labiríntico infelicidade > felicidade > infelicidade... O fim do poema expressará, nesse sentido, o adiamento do “viveram felizes para sempre”. Revelará, ainda, um fim que não encerra o drama da protagonista da história contada, um fim que dispara outro começo, trágico, negativado: “Quando acordou / era uma vez uma mulher / com pés de pato”. “Adereços fundamentais” também apresentará um final labiríntico. A personagem do poema é movida por um mal-estar, velado (não nomeado) ao leitor. Após muitas tentativas (cuidados com a aparência, uso de psicotrópicos, adoção de uma postura mística etc.), “passou a cortar as unhas todo dia / com esmero com perseverança / até que de tanto cortá-las / as unhas viraram cabelos / e pelos meus cálculos / voltamos à estaca zero”. No desfecho de “Consciência diurna da alma”, esse adiamento do fim. Além de outra saída jocosa para uma situação dramática, o poema apresenta uma cena em que a negatividade tem por resolução uma resposta-brincadeira: “Cadê meu corpo? / perguntou a alma / sem corpo // Foi pra lá / respondeu a pomba/ apontando pra lá // E lá chegando / MEU DEUS O QUE É ISSO? // É um precipício/ sua bobinha // E agora? / perguntou a alma // E depois? / respondeu a pomba”. O labirinto em que se encontram presos os personagens de Clube dos Membros Fantasmas. A impossibilidade de um final esperançoso. A inviabilidade do encerramento do círculo dramático, de perdas e derrotas, em que vivem encerrados.
Em “Uma questão de sobrevivência”, o redirecionamento do senso se dá pela inversão de um estribilho popular: “Ao que tudo indica / os cordeiros ainda estão escondidos / na pele dos lobos”. É o mesmo recurso utilizado em “Esses não são os impostores”: “Estavam no lugar certo / na hora certa”. Ao final do poema revela-se “É inacreditável / como veremos adiante / que esses eram / os impostores”. Ora, impostores porque deveriam estar “no lugar errado, na hora errada”. Eis outra chave para o nonsense de Clube dos Membros Fantasmas: a criação de dissenso onde está estabelecido o consenso. Em “Receita para a infelicidade”, também a quebra de expectativa, a reordenação do senso comum. O título bastaria por si. O poema parece ecoar as insólitas prescrições de Histórias de Cronópios e de Famas, de Cortázar. Neste “manual de instruções”, encontramos, para citar apenas quatro delas, “Instruções para chorar”, “Instruções-exemplos sobre ter medo”, “Instruções para matar formigas em Roma”, “Instruções para subir uma escada”. São prescrições (a exemplo de “Receita para a infelicidade”) cuja inutilidade prática constitui parte essencial de seu efeito. Uma vez que são instruções que nem instruem nem serão postas em prática, sua força provém de seu aspecto insólito, absurdo e risível. Voltando ao poema, a ruptura é também realizada em sua materialidade gráfica. Nesta instrução para a infelicidade, o verso mais notável, qual seja, “a felicidade é uma gaiola aberta à espera de um pássaro”, representa uma quebra na rima visual, ocorrência que desarmoniza o texto. Mas esse paradoxismo, presente também no oxímoro “a felicidade é uma gaiola”, revela-se plenamente congruente quando não se perdem de vista a vida como ela é, as possibilidades do poético e o projeto nonsense que orienta Clube dos Membros Fantasmas.
Outra receita é dada em “98151-3682 pare de sofrer”, poema em que a trapaça só é revelada nos versos finais: “Só veio a voz no fim do túnel / que disse antes do bip / esse número de telefone não existe”. Na contramão das estratégias enunciativas que ambicionam o aliciamento do leitor (publicidade etc.), Clube dos Membros Fantasmas enuncia incertezas. A esse respeito, vejamos o que nos revela “Três tigres tristes”: “Somente dois / nem éramos tanto / decepcionávamos / e o público vaiava // Nem tigres éramos / tantas vezes inseto / chegávamos a ser / tristes e não éramos // Era todo um mistério / se era lágrima ou chuva / essa mágoa profunda / que fazia chuá chuá”. A partir de um jogo de palavras, um trava-línguas, o poema mobiliza, uma vez mais, o cálculo falho, a hesitação quanto à consistência dos seres e das coisas e, por consequência, a preservação do mistério.
Roland Barthes, em sua aula inaugural no Collège de France, associou a literatura à trapaça: “trapacear com a língua”, “trapacear a língua”, eis sua definição de literatura. Uma “trapaça salutar [...] que permite ouvir a língua fora do poder”, “uma revolução permanente da linguagem”. Parece ser esta a literatura produzida em Clube dos Membros Fantasmas, em especial, por sua agramaticalidade, expressa nos paradoxos, nas ambiguidades, nas inversões de provérbios e noutros procedimentos que promovem desestabilização do sentido e transgressão do senso comum. Dessa maneira, “trapacear com a língua”, “trapacear a língua” é gestualidade a serviço de uma negação. Trata-se de uma língua também “fora do poder”, situada, assim, no perder.
A imprecisão do sentido chega também ao poema que encerra o livro. Em “The and”, ela se manifestará numa espécie de recusa do encerramento da brincadeira, continuidade do jogo, suspensão do final: “O e...”. Mas não se trata de, em perspectiva positivada, evitar o fim, apenas de prolongar sua duração: “Vamos pular o leão / enjaulado no emblema / da Metro-Goldwyn-Mayer”. O fim anunciado em “The and” é diferente dos desfechos recorrentes: “Viemos agora ao final / da história e podemos / dizer que // Aqui não há herói / em cavalo imóvel / sob holofote // Não há casal se beijando / na chuva sem guarda-chuva / ou antigripal ou medo da morte”. E a brincadeira, o jogo, ao chegarem ao fim, são revelados: “Agora a produção / retira o cenário / atores se despem // luzes se apagam / portas se fecham / ficaremos aqui // sob o perfume / dos que aqui estavam / quando havia festa // sob o ponto cego / de um letreiro tosco / anunciando o fim // [...] // Mas tudo bem / estamos prontos / desçam os créditos”
Por tudo o que foi dito até aqui, o nonsense de Lucas Ferreira parece atualizar, à sua maneira, o lirismo reivindicado por Manuel Bandeira em “Poética”: “o lirismo dos loucos”, pela centralidade do insólito; “o lirismo dos bêbados”, pela imprecisão e pela indeterminação; e “o lirismo dos clowns de Shakespeare”, pelas troças, armadilhas e trapaças que atravessam Clube dos Membros Fantasmas.
3.
Faltou dizer, no preâmbulo deste texto, que a impossibilidade de o verbo tocar o real e a inviabilidade da revolução por meio da palavra poética (insucesso detectado já no fim dos anos 1960) resultariam no crepúsculo das utopias, revés que abriria espaço para um desencanto vertiginoso. A arte participativa, de embate, cedeu, em parte, lugar a dicções pasteurizadas, conciliatórias, anestéticas. A partir de então, um real cada vez mais miserável, sem aura, faria da linguagem poética sua casa. Enjaulada no aspecto indicial dos textos, a forma aqui descrita produzirá arriscadas relações de vizinhança com estratégias enunciativas (e éticas) massivas: publicidade, slogans políticos, discursos motivacionais, jingles etc. É neste panorama que vem a lume Clube dos Membros Fantasmas, livro cujo humor busca articular desvios, impasses e fraturas de sentido. Embora aposte na comunicabilidade (no coloquial, na simplicidade e no humor), o livro mobiliza inventividade e trabalho artesanal, recusando-se, dessa forma, a louvar a miséria da palavra, prática tão própria desta época.
Édipo Ferreira para A bobina




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