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Cantos à beira-mar: a poeta Maria Firmina dos Reis e o sentimento do mundo

há 11 minutos
6 min de leitura

“E que mais posso querer?

Ver-te Camões, Dante ou Milton

Ver-te poeta ― e morrer.”

(Firmina dos Reis, 2024, p. 43)




Há alguns dias, antes de começar a escrever este texto, conversei com alguns colegas escritores sobre um “talvez-conto” que escrevi para o Substack. Nesse entremeio, chegou até mim a leitura de O mal-estar na civilização, ensaio de Sigmund Freud, publicado em 1930. Mais especificamente uma passagem na qual o autor reflete sobre o relato de um amigo em carta: a sensação de uma extensão sem barreiras ou, para usar o termo do próprio Freud, algo “como que oceânico” (2010, p. 14). Para o psicanalista, esse fenômeno seria a percepção de um intenso vínculo com o mundo exterior, uma conexão primordial, anterior até mesmo à formação do próprio “Eu”. No ensaio, Freud imagina que “este ser-um com o universo (...) apresenta-se como uma tentativa inicial de consolação religiosa, como um outro caminho para negar o perigo que o Eu percebe ameaçá-lo do mundo exterior” (p. 25).


Curiosamente, ao debruçar-me sobre a leitura de Cantos à beira-mar, deparei-me com aspectos dessa presença, sobretudo no tocante à relação expansiva do eu poético. A obra é de autoria de Maria Firmina dos Reis (1825-1917), mulher negra e também autora de Úrsula (1859), obra amplamente reconhecida como o primeiro romance abolicionista do Brasil. Além da prosa, Firmina dos Reis também escreveu canções, contos e poesia, como é o caso do livro sobre o qual conversamos aqui.


A edição que li foi publicada em 2024 pelo Círculo de Poemas, selo de colecionador da Editora Fósforo (SP). Organizado pela pesquisadora Luciana Martins Diogo, o volume conta com texto de orelha de Lubi Prates, apresentação da própria organizadora e posfácio de Juliano Carrupt do Nascimento. Além do compilado principal, a edição traz uma segunda seção com outros poemas da escritora.


Com a reedição de Cantos à beira-mar, além de revisitarmos um passado histórico não tão distante assim, acessamos um trabalho insurgente que transita entre a fuga e a insubordinação. Em um Brasil imperial, escravocrata e profundamente patriarcal, a tomada da palavra por uma mulher negra significava um rasgo na tentativa de um tecer hegemônico sobre a história. Desse modo, durante a atmosfera do século XIX, mais precisamente durante a Terceira Geração do Romantismo no Brasil, os cantos de Firmina dos Reis se revelavam intensamente no campo da denúncia social.


Embora esse aspecto seja fortemente associado a um suposto “declínio literário” na atualidade, argumento frequentemente utilizado para desqualificar determinadas narrativas, nota-se que, no Brasil, o fenômeno “literatura de denúncia social” (como se todas as outras não fossem) está longe de ser uma novidade. Nesse sentido, a poética de Maria Firmina dos Reis nos informa, antes, sobre uma lacuna deixada pela “crítica tradicional”. Aspecto que resultou, inclusive, no apagamento da autora durante muitos anos.


Cantos à beira-mar é dedicado à memória de Leonor Felipa dos Reis, mãe da autora. O livro  percorre versos ritmados principalmente pelo luto e pela saudade, pelo desejo e pela solidão; mas também pelo modo como a história a convocava. O mar, como símbolo primordial, é como um porto de onde as palavras viajam para lugares ora perto, ora distantes do “Eu”.


Destaco a seguir alguns poemas que chamam a atenção nesse sentido e que me levaram a perceber aspectos do “sentimento oceânico”, de que fala Freud. O primeiro, intitulado “O meu desejo”, imprime no consolo religioso sentidos de fuga, que aparecem principalmente através do luto e da saudade:


Na hora em que vibrou a mais sensível

Corda da tu’alma ― a da saudade,

Deus mandou-te, poeta, um alaúde,

E disse: Canta amor na soledade,

Escuta a voz do céu ― eia, cantor,

Desfere um canto de infinito amor.


Canta os extremos duma mãe querida,

Que te idolatra, que te adora tanto!

Canta das meigas, das gentis irmãs,

O ledo riso de celeste encanto;

E ao velho pai, que tanto amor te deu,

Grato oferece-lhe o alaúde teu.


(Firmina dos Reis, 2024, p. 41-42)



A maneira de mobilizar o universo divino, reconhecê-lo e apropriar-se dele, informa sobre um eu poético que busca se afastar dos perigos mundanos. Ao mesmo tempo, entretanto, há consciência de que esse aspecto se move através do desejo: “Não é querer, é desejo” (Idem). Ou seja, a relação entre o eu poético e os territórios que o poema acessa demonstra uma maneira de fugir da dor do luto e da saudade, pelo consolo aparente na canção de exaltação. Cantar um outro caminho para negar/expulsar os males que lhe cercam: no lugar da saudade, um canto de infinito amor.

Em todo o livro, os poemas experimentam a multidimensionalidade, cujos traços se apresentam em versos como os de “Minha terra”, que ressoam sobre os homens e mulheres através de um desejo que é coletivo: pelo fim das opressões coloniais da época. Diferentemente do poema anterior, em “Minha Terra”, a voz poética ressoa em uníssono, como uma canção cantada pelo povo em exaltação à liberdade do território:


(...)


A unânime grito se erguia a cativa

Que jaz a dormir;

E ao som prolongado que os ecos repetem

Desperta a sorrir!


Os braços distende — que agora é rainha;

Quebrou-se o grilhão!

Com a fronte cingida de louros tão gratos

Se ergueu Maranhão!


O pego, as florestas, os campos, que regem

Os vastos sertões,

Entoam seu hino de amor, liberdade!

Ao som dos canhões.


(Idem, p. 29)


Nesse ritmo os poemas vão transitando entre o mundo e os sentimentos sobre ele. Entretanto, diferentemente do que postula Freud acerca do “sentimento oceânico”, o que se nota na relação entre eu poético e o seu todo exterior é, principalmente, uma associação consciente com as dores coletivas. Nesse sentido, o que vemos é também um manifesto de insubordinação pela apropriação do fazer literário. E, se naquela época, naquela forma de atuação do colonialismo, esse movimento significou uma insurgência político-poética, hoje, com os efeitos do colonialismo de nossa época, os versos de Cantos à beira-mar nos indicam, de fato, outros caminhos: os da manutenção e da continuidade de um fazer poético que não se submete às amarras convencionais.


Em outras palavras, a presença do “sentimento oceânico” nos cantos de Maria Firmina dos Reis não se limita a um trajeto de fuga ou de negação dos perigos do mundo, mas se reafirma na coexistência dos desejos: íntimos e coletivos. Nos poemas “O meu segredo” e “Ah! não posso!” (respectivamente) é possível notar esse gesto tomando forma à medida que as dimensões se deslocam e reviram questões que circulam dialeticamente entre o eu poético, suas dores e a presença de outros elementos da natureza:


(...)


Já gasta dum querer que me devora,

Vou ― ave da soidão, buscando um ermo,

Asilo ao meu sofrer…

Onde do sol os raios nessa hora

Não penetrem ―  do trilho lá no termo

Vou sonhar ― e gemer.


Aí, curvada a fronte sobre a mão

Brotam mil pensamentos à porfia,

Mil lembranças, oh céu!

Vêm nas lúbricas asas da aflição,

Como dores nas horas d'agonia,

No peito dum ateu!


(Firmina dos Reis, 2024, p. 47)



(...)


Se uma frase se pudesse

Do meu peito destacar;

Uma frase misteriosa

Como o gemido do mar

Em noite erma, e saudosa,

Do meigo, e doce luar


(...)


Se dizê-la é meu empenho,

Reprimi-la é meu dever;

Se se escapar dos meus lábios,

Oh! Deus ― fazei-me morrer!

Que eu pronunciando-a não posso

Mais ― sobre a terra viver.


(Idem, p. 50)


Edilma Acioli Bomfim, em seu ensaio A escritura da paixão (1996), escreve que “quando se fala de amor, desejo e erotismo, é da história da humanidade que se está falando” (p. 301). Ailton Krenak (2025) complementa esse pensamento ao acrescentar que fomos instruídos a imaginar a natureza como tudo aquilo que não faz parte do “Eu”. Pensando por essa ótica, o que se nota principalmente a partir da relação metafórica entre a natureza e o divino nos poemas é uma integração profunda entre o eu poético e o todo que lhe cerca; um modo de comungar com as dores do mundo. Isso nos revela, para além de tudo, o caráter imensurável da poética de Maria Firmina dos Reis. Dessa maneira é que o universo de Cantos à beira-mar se mostra um céu vasto, profundo e, por isso mesmo, histórico.


Todavia, embora a poeta seja pioneira em diversos aspectos do ofício literário, ela também é lembrada pelo terrível apagamento que possivelmente a assombrava e que violentamente oculta até hoje a sua face do mundo. Suas palavras, contudo, permanecem e são vingativas, assim como as águas. Portanto, dispensam a inércia, não cessam de avançar — como devem ser as palavras de uma poeta negra.


A poética de Maria Firmina dos Reis foi confidenciada ao mar, que, cuidadosamente, a devolve em eco ao mundo; reafirmando outro aspecto oceânico em seus versos. Através dos cantos da poeta atualizam-se também os nossos modos de estar no mundo, de comungar com ele e de reinventá-lo. Esta noite, à beira-mar, a lua ainda branqueja os mares, mas as poetas negras pisam mais firme na areia, e com os pés descalços.

Érika da Silva Santos para A Bobina. Érika é Graduada em Letras, com licenciatura em Português (Fale / Ufal), é mestra em Linguística e Literatura (PPGLL/ Ufal). Publicou os livros de poemas: Procurar o mar é exercício noturno (2022), Flores floresta (2024), a plaquete Esconjuro (2025), e em breve Cetim selvagem (no prelo).

E-mail: erika.santos@fale.ufal.br.


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