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Não tenho nem palavras



 

No post de hoje, o blog da escola abre mais uma coluna. Ela se chama nomes próprios e vai ter textos mensais, alternados, de dois colunistas que estamos muito felizes de hospedar este ano: Leonardo Gandolfi e Paloma Vidal.


O convite foi para o que eles escrevessem sobre o que quisessem. A poesia, a vida, as traduções, a sala de aula, mil coisas. Um escreve, depois o outro vai lá e escreve também. Vamos ver o que acontece.


No nosso primeiro texto, Gandolfi conta de um livro de que só existe um único exemplar: um álbum de recortes de poemas publicados em jornais da comunidade japonesa no Brasil que ele ganhou de um amigo, o Franklin. Poemas sobre caquis, os fios da barba, o cheiro de sol no cobertor, uns traduzidos, outros não, que fazem as coisas "de um jeito simples e sem truque". Mas como?


Boa leitura!

– a escola da palavra


 

 

Meu amigo Franklin Alves Dassie, sabendo do meu interesse pela poesia de alguns autores brasileiros de origem japonesa, me deu de presente um livro de que só existe um único exemplar. Na verdade, é como um álbum. Foi feito à mão. Folhas dobradas e grampeadas, nelas estão colados recortes de jornais dos anos 1980 com poemas escritos em japonês, algumas vezes seguidos da tradução, outras vezes não. Poemas feitos por imigrantes japoneses ou por seus filhos e filhas e publicados em jornais da comunidade japonesa no Brasil.

 

Franklin ganhou esse livro num sebo, aonde ia bastante, tanto que se tornou amigo do livreiro. Este livreiro sempre dava de presente para o Franklin fotos, bilhetes e recortes que moravam dentro dos livros velhos que o livreiro conseguia para vender no sebo.

 

Eu moro em São Paulo e Franklin mora em Niterói. Somos amigos de longa data e conversamos às vezes por telefone. E quando, certo dia, falei para ele dos haicais de autores como Masuda Goga e Teruko Oda, Franklin me falou sobre esse original feito à mão, livro que ele guardava há tempo. E prometeu que, assim que viesse a São Paulo, traria o exemplar para mim.

 

Quando segurei o livro pela primeira vez, não acreditei. Todo ele feito de poemas impressos em jornais, recortados em quadradinhos e colados um a um, dois por página, nas folhas grampeadas do livro, à exceção da capa e da quarta capa que são manuscritas também em japonês. Nelas está escrito, junto da data de 1985, algo como Canções de circunstância / Haikais brasileiros / 365 dias. Trata-se de um tipo de antologia totalmente pessoal, sob a forma de apostila, coleção que alguém montou para si, sem deixar nenhuma assinatura, nenhuma identificação de quem seja. Montou apenas para guardar consigo esses poemas. Será que ela ou ele é autor de um dos poemas ali recortados e colados? Não dá para responder. Será que há também um álbum feito para o ano de 1984 e outro para 1986? Também não dá para responder.

 



 

Com o tempo, alguns dos recortes se soltaram. Por isso, na página, ficou a marca dos quadradinhos do jornal que se descolaram. Cada vez que folheio este livro, abro um grande sorriso. Dá uma alegria ler os poemas e uma alegria também ver a marca escura da cola seca de onde se desprenderam os poemas perdidos. Cada vez que folheio este livro, tenho uma sensação forte de estar diante de uma coisa bem viva. Afinal, dá para ler não só os poemas, mas também o gesto manual que recortou e colou os poemas, o gesto que dobrou e grampeou as páginas. E também o gesto dos anos que passaram, gesto que fez alguns poemas se soltarem das páginas. Mistura de delicadeza, precisão, amor e corrosão pelo tempo.

 



 

“Hoje é uma noite fria de Inverno. Agasalhei-me bem, senti muito frio. Fui escrever meu diário, mas não consegui passar de 3 linhas” (Tadao Shiguematsu). “Estou há 10 dias de cama. Noto que minha barba, crescida e branca, tornou-se pontiaguda” (Bunroku Sato, Atibaia). “De manhã cedo, estendi um cobertor e ao recolhê-lo, senti o cheiro do sol nele. Lembrei então de minha falecida mãe e pareceu-me sentir o seu cheiro também” (Roson Umeyama, Presidente Prudente). “Eu havia ganho um caqui. / Ele era perfeito, não havia nada de errado com ele. / Então resolvi levá-lo ao altar que temos em memória de meu pai” (Saturo Miyoshi, S. Paulo).

 

Acima algumas versões em português que combinam, ao mesmo tempo, paráfrase em prosa e comentário (e não seguem a forma de três versos do haicai). Tais versões acompanham os originais em japonês, esses sim com os devidos três versos.

 

Além desses quatro poetas citados, há autores de outras cidades: Florianópolis, Manaus, Osasco, Teresópolis, Londrina, Pindamonhangaba e por aí vai.

 

Quando pensei em comentar minimamente esses poemas, me lembrei de uma frase da livreira no filme Dias perfeitos. Quando Hirayama, o protagonista, vai à livraria e escolhe um livro da escritora Aya Koda, a livreira diz: “ela usa as mesmas palavras que a gente, mas tem algo que soa especial”. Acho que é o que acontece nesses e noutros poemas do livro-álbum. Como uma barba, um cobertor e um caqui podem soar – de um jeito simples e sem truque – de forma tão especial?

 

E o que dizer deste trecho do primeiro poema citado: “mas não consegui passar de 3 linhas”. O que impediu o poeta de continuar o seu diário foi o frio, mas, com isso, ele parou literalmente na terceira linha, ou seja, ficou com os três versos, mínimo e máximo de que todo haicai precisa. Uma maravilha. Diz e faz de uma só vez. Ou melhor, dizer e fazer: uma mesma coisa.

 

A essa altura do campeonato, chegou a hora de me perguntar: por que escrever sobre um livro de apenas um exemplar? Os poemas são bons, bonitos – e a história do exemplar é interessante com seu mistério sobre a autoria e sobre todos esses poetas, no Brasil, que escrevem em japonês –, mas não valeria a pena usar este espaço para falar de um livro a que as pessoas poderiam ter acesso?

 

Pois bem, resolvi escrever sobre um livro único, porque seria uma boa ocasião para falar também de um amigo único e especial.

 

Conheci o Franklin quando fui estudar Letras na UFF em 1999. Durante a graduação, fomos da mesma turma. Eu tinha abandonado o curso de Engenharia; ele era mais velho e tinha abandonado um monte de coisas para estar ali estudando. Franklin foi o primeiro poeta de verdade que conheci, um dos mais decisivos para mim.

 

Logo no início do curso, tive a sorte de ter me tornado seu amigo. E nos meus atrapalhados vinte anos de idade, ele me mostrou os poetas e as bandas que iriam fazer minha cabeça. Aprendi muito com o Franklin e ainda aprendo. Tanto que, passado todo esse tempo, vem ele agora com esse presente para mim. Mistura de delicadeza, precisão e amor que a passagem do tempo só refina. Não tenho nem palavras.

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2 Comments


Também fiquei interessada pelo livro! Que presente!

Tive a honra de receber ensinamentos de Mestre Masuda Goga e de aprender com os livros que ele e Teruko Oda publicaram.


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Uau, que história! Um belo começo pressa coluna :) Gandolfi, por favor, fotografe mais dessas páginas pra gente conhecer o livro? Fiquei afim de ter um fac-símile. Muito precioso.

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