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Exercício E e a usina da vida

Atualizado: 1 de abr.


 Primeiro vem a fila, que anda em cobrinha, a quadrilha e a marcha de destacamento. No segundo momento, tem a roda, o sarau e, por fim, um terceiro é a vida mesmo. Exercício E, de Encontrar e Esperançar é o espetáculo mais recente da Lia Rodrigues Companhia de Danças, que roda pelo mundo há 34 anos e há 20 forma bailarinos na Maré. Este é o terceiro dos exercícios-espetáculos da Companhia. Vieram antes Exercício M, de Movimento e de Maré (2013) e Exercício P, de Pororoca e Piracema (2017).

 

Vemos 19 criadores intérpretes em cena, todos estudantes da Escola Livre de Dança da Maré. Os meninos usam preto, branco e variáveis de escuro e claro. As meninas, azul e vermelho, apenas uma delas destoa, com lilás. O tecido, os cortes e as peças foram trazidos por cada artista e o figurino do bailarino Arthur Azevedo se põe entre mundos, usa camisa preta e short vermelho.

 

Os bailarinos avançam pelo palco em formação quadrada, e mais do que movimentos simultâneos, sincrônicos, vemos cada corpo montar os mesmos gestos a partir de seu jogo de dentro, de sua identidade. Numa marcha do calor, por exemplo, balançam as mãos perto do pescoço, como quem se abana. Feito olhando para cima, com a língua para fora, podem dizer “deus, desligue a frigideira”. Mas com os olhos injetados e cara de dor, o que parecia calor nos confunde: podemos ver alguém que tenta apagar a fúria, ou que se queimou com ácido e não pode tocar as feridas. São gestos que partem da identidade, mas não do idêntico, nem se resumem à representação: são corpo e presentificação.

 

Na sequência, uma roda se forma. Um a um, os bailarinos vão ao centro dela e solam acompanhados por um mesmo Prelúdio de Bach, repetido 19 vezes. O que vemos não é análogo a quando nós abrimos a roda em um baile para cada amigo brilhar. Em fúria, com dor imensa, descrentes, famintos, nos olham e dançam balé, dança popular e contemporânea. São poemas feitos de corpo em que podemos ter lampejos de alguma narrativa.

 

Ricardo Xavier, Valentini Fittipaldi e Larissa Lima ajudaram a pensar a criação dos solos individuais. Júnio Nascimento, integrante do espetáculo, conta que seu solo parte de uma ideia sobre a própria criação. Seu solo explora o movimento bípede, mais de pé, por causa de uma limitação temporária em um dos joelhos. Vemos seus olhos revirados, a boca solta se debatendo, os braços tremiam, ele convulsionava. O bailarino conta que Lia Rodrigues, a diretora, aprovou o solo de primeira. Dandara Ribeiro, também bailarina de Exercício E, conta que foi o processo de criação mais longo de que participou, o que é desafiador e muito importante em sua formação como artista do corpo. “É a primeira vez que estou participando de uma temporada extensa.” Para ela o espetáculo foi fruto de uma turma por quem nutriu um grande afeto e uma troca intensa e verdadeira, por isso tem sido uma jornada muito proveitosa. Em cena, Dandara nos monta o itinerário de alguém que é atravessado pelo horror e não consegue esquecê-lo. Foge, mas atira contra o pesadelo.

 

Uma das referências para Exercício E é o livro Escute as feras, obra em que a antropóloga francesa Nastassja Martin narra as consequências físicas e psíquicas de ter sido atacada por um urso na Sibéria ­– monstruosidade e tragicidade que nos ajudam a pensar o espetáculo. No conjunto de referências, Júnio e Dandara contaram sobre os diários que os bailarinos construíram e que serviram de mote para os solos. Chamados de kits, eles contém elementos como fotos, desejos, anotações sobre sons, poemas e respostas a algumas perguntas feitas pelos monitores. Nas crises criativas ou em dificuldades durante o processo, os bailarinos revisitam os kits e o trajeto que pretendiam cursar.

 

Fiquei pensando que tem uma relação bonita entre esses diversos agentes e isso aparece no resultado do trabalho. A Lia Rodrigues é uma das diretoras mais importantes da atualidade, a Escola Livre de Dança formou gerações de bailarinos, alguns estão em outras companhias, outros continuam na Maré, dançando e também ensinando, e ainda há uma geração mais recente que tem aproveitado desse caldo que engrossa há décadas. Falando assim, dou a entender que é a transmissão de geração em geração que faz a força da Cia de Danças. Mas não é sobre isso. Em Exercício E estão sobrepostos os atos de criar ­– criar dança e comunidade – transmitir, bolar éticas possíveis, interpretar. Não é linear e nem é preciso ter restrições ou cadeados nesse fluxo, que é pedagógico, mas antes é cultural, é sobre apostar para acertar, sobre avançar por vezes em bloco, mas também, porque alguém tem que ver se o chão é firme, avançar sozinho.

 

Em meio a acontecimentos vindos dos combalidos, prejudicados, gente tirada no susto de si, ainda que resistente, de guerra, vemos as caretas serem intercaladas com o corpo, para este fazer seu necessário. As diversas máquinas de que é feito um corpo são acionadas, cada uma a seu tempo, cortando a duração, desmontando a narrativa. Fazendo com que vejamos frames, imagens e arquétipos em um mesmo circuito de movimento.

 

Júnio conta sobre o que chama de mazelas, aqui associadas às caras, que aparecem no Exercício:

 

São reflexo do momento em que nos encontramos, o de criar e o nosso, fora do Centro de Artes, é sobre também sobre aquilo que sofremos. A maioria das pessoas, maioria mesmo, são periféricas, da favela, ou pessoas pobres de outros lugares que estão ali para buscar conhecimento e poder levar seu trabalho artístico adiante. Se não me engano, de todo mundo, só uma pessoa do elenco tem uma condição financeira boa e é da Zona Sul, a maioria tem outro lugar, um lugar da mazela, desse corpo que não é olhado, mas que também é político por si só, lugar que já estava muito presente para cada uma das pessoas ali.

 

Da arquibancada do Teatro Sérgio Porto, ao fim de cada solo, brotaram palmas, indecisas a princípio. Não gostei daquilo, preocupado com o volume dos aplausos acabar por tirar o palco dali, do mundo a parte de que mostramos um lampejo quando fazemos arte, e reinseri-lo nesse mundão aqui mesmo, o do “não temos vagas para todos”, o da capacitação infinita do trabalhador para continuar competitivo, e o que vem junto com isso: ansiedade, inveja, disputa, coisas que precisamos tanto estrangular dentro do dia para podermos abraçar e beijar e desejar o bem e o gostoso ao outro. As palmas realmente diferiam, por distração, por plateia, por efusividade aleatória, por estarem ali para medir e pontuar o gosto, tudo isso. Não bastassem os monstros que os bailarinos punham para dentro e para fora no sarau, tinham ainda que passar por esse júri improvisado.

 

Mas olha só que joia que acontece no terceiro ato. Quando não faltava mais nenhum solo, o milagre. Os gestos apresentados no sarau montam o terceiro ato como sílabas que, reorganizadas em conjuntos novos, repartem o chão do Sérgio Porto em corredores, platôs, arenas, outros palcos, marchas, comunidades por afinidade, sílabas que formam novas palavras. O terceiro ato nos presenteia com a recostura dos frames do segundo e do primeiro atos, fazendo acontecerem quatro, cinco cenas simultâneas, que se desmontam e fazem nascer outras e outras, um sonho de multidão, a vida, com tudo que sabemos dela, condensada em um palco só. Cenas gigantescas, engraçadas, terríveis.

 

O encontro do indivíduo com o grupo, a montagem dos gestos, que costurados se tornam pequenas comunidades, nos dão dica do que quer dizer o Encontrar do nome do espetáculo. Mas e o Esperançar, será sobre o poder de associação, sobre a multiplicação da força gerada não só no encontro, mas na criação individual e coletiva, na capacidade de montar um sem número de arranjos, com pessoas diferentes a cada vez, sem barreiras? Acho que sim, principalmente se nos lembrarmos que as pessoas ali têm histórias de vida tão complexas e ao mesmo tempo tão exemplificadoras do que são as estruturas das desigualdades do Brasil. Por isso mesmo, talvez carreguem mais esperança, tenham mais com o que contribuir para outros jeitos de existir mais justos e mais corajosos, que não apostem usando a morte como moeda, mas sim que apostem num baile onde todo mundo dança e brilha.

 

Vindo da literatura, ofício sacana por ser absurdamente solitário, individual, ainda ligado ao ethos do gênio, do talento, da prescindibilidade de aprendizado, eu, toda vez que vejo algo absurdo e forte acontecendo em grupo, por um lado penso que podia ser feita assim também, em bando, a literatura. E é, e pode ser. Os espaços formais e informais de educação e maturação artística precisam ser pensados como usinas (assim como nomeou-se o Teatro Oficina) da cultura, aceleradores de partículas, campos de testes onde fingimos ver presente e futuro e, para estarmos preparados para eles e ou prepará-los, criamos rituais coletivos onde o fazer e a escuta atenta são os principais produtos. Lugares como a Escola Livre de Dança da Maré nos ensinam que é preciso ver a cultura como utilidade pública, como serviço essencial, como posto de saúde, porque a cultura constrói exatamente isso, saúde.

 

Fica com isso a sensação de que o sarau era mais uma cooperativa de trabalhadores, que produziram cada um pequenas máquinas de sentido e força para que, todas juntas depois, montassem uma máquina grande, como se monta um horizonte.


 


Texto escrito com a colaboração de Júnio Nascimento e Dandara Ribeiro, bailarinos do espetáculo.

 

Direção: Lia Rodrigues

Assist. de direção: Amalia Lima

Assistentes de criação: Valentina Fittipaldi, Andrey da Silva, Larissa Lima, Ricardo Xavier

 

Criadores intérpretes: Alba, Anne Loise, Arthur Azevedo, Bella Carvalho, Cecília Carvalhosa, dandara Ribeiro, Dinara Carneiro, Jay Pierr, Júnio Nascimento, Marcelo Sina, Marina Alves, Michelly Nascimento, Pamela Costa, Samara Alves, Sarah Melissa, Seven, Tatiana Penna, Taylon Araujo e Vanu Rodrigues.

 

Música: Jordi Saval interpreta “Prelúdio de Solo Suíte #6 em Ré” de João Sebastião Bach.

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