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A voz da quarta pessoa do singular



 

Uma vez perguntei a Lawrence Ferlinghetti quem é que fala nos poemas dele. Nunca encontrei com Ferlinghetti pessoalmente, mas, às vezes, quando posso, converso com os poetas de que mais gosto através dos seus poemas. Quem é que fala nos seus poemas? E ele disse: “A voz da quarta pessoa do singular.”

 

Fiquei pensando se a quarta pessoa do singular era como a quarta dimensão. Mas acho que não, ela é só uma conjugação. Parecida com a primeira, a segunda ou a terceira pessoa, só que diferente. Na verdade, a quarta pessoa é tão parecida com essas outras que até achamos que são elas. Mas tem algo que escapa.

 

Usar a quarta pessoa do singular talvez seja como desenhar com a mão esquerda de Joan Miró. Sobre isso, João Cabral disse: “Miró sentia a mão direita / demasiado sábia / e que de saber tanto / já não podia inventar nada. / Quis então que desaprendesse / o muito que aprendera, a fim de reencontrar / a linha ainda fresca da esquerda.”

 

Não se trata de desenhar pela primeira vez, mas de desenhar pela primeira vez de novo. E eu gosto desse “pela primeira vez de novo.” É um claro enigma que não precisa ser resolvido, e sim um que — quando é posto — nos muda de lugar.

 

A quarta pessoa do singular sempre fala pela primeira vez. Mesmo que fale repetidas vezes. Quando ouço a voz da quarta pessoa do singular, eu pergunto a ela: quem é você? Para logo depois eu perguntar a mim mesmo: quem sou eu?

 

Não tem a ver com ser pessoal ou impessoal, porque é possível usar a quarta pessoa do singular tanto de forma pessoal quanto impessoal. E também não tem a ver com ficção ou memória, porque é possível a ficção ou a memória usando a quarta pessoa do singular, da mesma maneira que é possível na voz das outras pessoas.

 

A questão é que, sempre que ouço a voz da quarta pessoa do singular, essas divisões — pessoal, impessoal, ficcional, político, poético etc. — começam a não caber em gavetas, começam a não ser aquilo que achamos que elas são.

 

Com um comportamento desses, é claro que a voz da quarta pessoa do singular não pode ser descrita em gramáticas, nem em outros livros normativos do tipo. Ela é como aquele peixe de que Adília Lopes falou: “Escrever um poema / é como apanhar um peixe / com as mãos / (...) / o peixe debate-se / tenta escapar-se / escapa-se / eu persisto / luto corpo a corpo / com o peixe / ou morremos os dois / ou nos salvamos os dois / (...) / é uma questão de vida ou de morte / quando chego ao fim / descubro que precisei de apanhar o peixe / para me livrar do peixe.”

 

No caso, pegar o peixe é também deixá-lo escapar. Como assim? “ou morremos os dois / ou nos salvamos os dois.” Quando falamos na quarta pessoa do singular, somos modificados por aquilo que falamos. Nesse sentido, categorias como sujeito e objeto se irmanam e tendem a se misturar mais do que o habitual. Na verdade, elas se dissolvem.

 

Dissolver-se não para desaparecer nem para se transformar em um só (se bem que isso também acontece um pouco), mas sim se dissolver para se tornar uma forma de pluralidade.

 

Como já deu para perceber, a quarta pessoa do singular é uma questão que — menos do que exemplos — traz acontecimentos.

 

Primeiro um da Ana Cristina Cesar:


olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

Agora um do angolano Arlindo Barbeitos:


oh monstro enorme

fecha a nossa boca

o nosso ventre falará

abre o nosso ventre

o nosso cu falará

rebenta o nosso cu

os nossos dedos falarão

corta os nossos dedos

os nossos ossos falarão

 

De uma maneira bem diferente uma da outra, as vozes de cada um desses poemas vão se modificando ao longo dos versos. Começam de um jeito e ao fim já são outra coisa. Nós também mudamos conforme lemos ou ouvimos esses poemas.

 

No primeiro deles, a voz que fala (que olha) é metamorfoseada por aquilo em que ela toca, no caso “o corpo de um poema”. Nesse encontro de corpos, os sentidos se aguçam e modos de percepção se alteram. Sentir “um filete de sangue / nas gengivas” é só a ponta do iceberg em relação ao que acontece durante a transformação.

 

No segundo poema, a voz que já é um coro resiste, se tornando cada vez mais múltipla e viva quanto mais a violência do monstro é exercida sobre ela. Os versos seguem num crescendo, profusão que se intensifica. Só que, curiosamente, quanto mais a situação se expande, mais as partes vão ficando menores. Se o poema continuasse, até as moléculas falariam.

 

Um pequeno parêntese. Multiplicar a voz não significa falar a mais. Pelo contrário, pode significar falar menos, se abrir para o diálogo, em outras palavras, ter a valiosa disponibilidade para a escuta. Fecha parêntese.

 

Antes de terminar, vale destacar que, em ambos os poemas, o corpo ocupa um lugar especial: sangue, gengiva, dentes, boca, ventre, cu, dedos, ossos. Na quarta pessoa do singular, se fala e se escreve com todo o corpo e não apenas com boca e mãos.

 

De volta a Lawrence Ferlinghetti. Como é isso de escrever na quarta pessoa? Ele responde: “Nunca escrevi na quarta pessoa.” Eu digo que não entendi. Então ele completa: “Nem sei escrever na quarta pessoa, mas os meus poemas sabem, eles só falam através dela.”


 

Texto de Leonardo Gandolfi para nomes próprios

 

 

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