



poéticas do fragmento
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programa
Existem muitos fragmentos no fragmento. O fragmento antigo: papiro, tábua ou seixo sobrevivente cuja longa passagem do tempo carcomeu seu todo; o moderno, fratura textual propositada, de uma poética intencionalmente estilhaçada; e o hipermoderno: escrita digital triturada, cacofonia ininterruptamente descontinuada. A extremo leste — e pouquíssimo conhecido entre nós — há o fragmento nipônico: livre miscelânea de prosas curtas, conhecidas como zuihitsu, gênero popular e mais antigo que o famoso haicai. Esta oficina pretende traçar um breve panorama da história do fragmento, da estética e da escrita do estilhaço na literatura. Durante os quatro encontros, perambularemos sobre diferentes tipos de escrita fragmentária, as nuances do fragmentismo e dos fragmentistas. Do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, ao Livro de travesseiro, de Sei Shônagon, abordaremos o fragmento como escrita relampejante e “puro paradoxo”, como nos lembra João Barrento. Ferida aberta no branco da página, trata-se, afinal, de uma forma que, na sua estranheza, é capaz de abarcar uma interessante polissemia: entre a prosa e a poesia, tem potencial, também, de ser híbrido entre literatura e filosofia. Ao final, nos concentraremos num sentir e escrever fragmentários com maior influência do zuihitsu, tal como o gênero japonês (traduzido como “ao correr do pincel”) indica: pelo acionamento dos sentidos no presente, pela ausência de pauta ou roteiro prévio de escrita e captação espontânea dos acontecimentos ao redor, no aqui-agora, de quem escreve. Um sentir e escrever fragmentários que nascem, também, dos estados de tédio e silêncio, das andanças mais ou menos erráticas; que caminham pela materialidade, se embrenham nas texturas do mundo e pinçam estados momentâneos de vivências singulares. Encontros: 1. A poética e as formas do fragmento 2. Fragmentos do Oriente 3. Ao correr da caneta: fragmento e espontaneidade 4. Espanto, clarão, fragmento * Felipe Moreno (1993) é mestre em literatura (UFSC) (com pesquisa voltada à literatura fragmentária e ao haicai) e doutorando em Filosofia (UFSC). Também é idealizador e coordenador da Casatrês, minieditora de proposta artesanal. Escreve crônicas, miniensaios, haicais, haibuns, fragmentos, miscelâneas. Autor dos livros O bambu balança (Bestiário, 2022), Retalhos (Casatrês, 2022) e O clarão das frestas (Círculo de Poemas, 2024). Mantém uma newsletter chamada farfalhada.
