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Riscar o chão dos vivos e dos mortos



às vezes escrevo apenas porque / tenho vontade de rezar
Thadeu C Santos
Morte e vida não são meras condições fisiológicas: a morte é a espiritualidade do desencanto e a vida é a disponibilidade para o encantamento. Muitos mortos dançam. Muitos vivos parecem ter perdido a capacidade de dançar.
Luiz Antonio Simas

 

No livro “Terra santa”, publicado pela editora Alma Revolucionária, Gênesis escreve nas primeiras páginas: “Vi a natureza viva, não esperava vê-la, porém ela se revelou a mim”. E depois continua: “E a coisa viva que vi revelou minha alma. Precisei afastar-me dos homens, poderosos da verdade e que odeiam o desconhecido." Assim ela prossegue, até o fim do 3º capítulo do livro 1: “Gênesis”. A poeta testemunha e narra o espanto sobre a natureza ao seu redor, intocada pela humanidade. Todo exercício imaginativo de esticar e investigar o passado e o futuro me causa interesse, e, nesse ponto, Gênesis ressignifica o livro mais famoso do ocidente: a bíblia. O projeto do livro é pensado nesse sentido desde o objeto até a composição dos versos nas páginas. Enquanto eu o relia nas últimas semanas, meus familiares o confundiram com a bíblia, porque ele é pequeno, tem a capa preta e dura, e o título impresso em dourado. Muito semelhante àquelas bíblias de bolso vendidas na livraria mais próxima da sua casa.


A manifestação da natureza e a atenção canalizada até no “farfalhar das folhas” me levaram à entrevista du poeta CAConrand traduzida pela Julia Raiz e intitulada “Rituais para poesia” onde elu comenta seus rituais de escrita e a importância da conexão com tudo ao seu redor para revigorar sua criatividade:

Eu me conecto com tudo ao meu redor. O que eu amo nos rituais não tem tanto a ver com as coisas com as quais eu entro em contato dentro de mim, mesmo que eu faça isso. É mais sobre a capacidade de ver que tudo ao meu redor, o tempo todo, tudo que está ao meu redor tem viabilidade criativa, não dá para enxergar isso de verdade até estar presente. Nossas vidas são tão agitadas e tem tanto caos no mundo, somos movides por rotinas, trabalho, a gente tem que fazer o que for para sobreviver, mas muitas vezes não temos espaço, ou pensamos que não temos, mas eu acredito que todo mundo poderia ter.

CAConrand fala sobre o caos no mundo e a dificuldade que temos de explorar nossa criatividade devido à rotina e ao trabalho. Gênesis escreve que, ainda no princípio de tudo, eram doze horas de trabalho, não havia descanso. “No ínicio era a velocidade e produção. Superpovoamento, desmatamento das matas, engarrafamento das águas, o plástico, os buracos na camada de ozônio, as guimbas de cigarro na barriga dos peixes, a exploração da terra, o diamante, a guerra, testes nucleares e as formigas carregando folhas cheias de agrotóxico para o centro da Terra.” Ou seja, o mundo contemporâneo, na escala do calendário cósmico, ainda se encontra nas primeiras semanas do ano, sendo este o “início” na escala temporal do universo. Você lembra do primeiro episódio daquela série “Cosmos: Uma Odisséia do Espaço-Tempo”? Mesmo nomeando a medida do tempo com “início” – ao longo do livro não existe uma data ou um horário que aponte a precisão temporal das coisas – encontramos em outro momento o verso “O tempo morreu”.


A poeta manifesta ao longo de todo o livro o que acredito que seja sua espinha dorsal: a desconstrução de ideias e ideais referentes a tudo que aprendemos sobre a bíblia sagrada. Ela executa isso em vários outros momentos, como no verso “Escrevo sobre Deus porque enquanto eu trazia Deus ao mundo ele gritava meu nome. Deus, meu filho, fez templo-berço nessa casa-corpo. E cresceu menina preta, pés descalços, canela russa, que sabia palavras, lia livros, contava estrelas e falava de coisas profundas como buracos negros”, aqui observamos que é a poeta que deu à luz a Deus, e Deus não tem as características físicas comumente circuladas no imaginário coletivo. Pelo contrário, seu próprio gênero não comporta seu nome. O verso “Deus não está assentado no trono” é ousado porque destitui o poder daquele que é onipotente, onipresente e onisciente. Entre tantos outros, no capítulo 4 do livro 2, “Antropogênese”, ela narra aquilo que seria um ato sexual entre Deus e o Diabo. O profano aqui afronta, rompe com o puro, transgride, concebendo visualmente o inimaginável no cristianismo.


Na 3° temporada da série “Pose”, quando Pray Tell revisita sua família extremamente religiosa, algumas de suas memórias de infância e adolescência são revisitadas. Pray Tell é um homem preto gay que rompe com sua família biológica para buscar sua verdade, aquilo que compreendo como ponte para os versos da poeta: “O MEU DESEJO É MEU! A MINHA LOUCURA É MINHA! É MINHA A PERDIÇÃO!”. Gênesis, com esse livro, faz algo semelhante escrevendo a sua própria bíblia, sacralizando a sua fé através do poema e tomando escolhas corajosas assim como Pray na série. Ambos manifestam seus desejos pela palavra: Pray contou à família que era gay e seguiu sua vida rumo a Nova Iorque, enquanto Gênesis fala e escreve poemas sobre aquilo que é sagrado e incontornável como sujeita que reivindica a liberdade sobre seu corpo e seus pensamentos. Pray Tell retorna à sua família para contar sobre ser soropositivo numa época em que não havia tratamento para a doença que acometia seu corpo; CAConrand fala na entrevista que os rituais para escrever poemas foram importantes para a cura da sua depressão; e Gênesis, no capítulo 3 do livro 3: “Crônicas I” descreve um corpo sem vida como um corpo sem poesia. A vida contorna o trabalho desses artistas, seja na ficção ou na vida real, as histórias particulares de cada um são seus instrumentos para a criação. E o corpo, com tudo que carregamos nele ao longo da vida, é aquilo que se torna as fagulhas do princípio da criação artística. É a partir das experiências desse corpo, em atrito com outros corpos, que os caminhos são trilhados.


No enterro de um bebê elefante, o corpo do filhote morto é carregado por dias até um local apropriado para o sepultamento. São ecoados pelas trombas dos elefantes os lamentos diante da morte, e eles não abandonam o cadáver até iniciado o processo de putrefação ou até que os funcionários do Departamento Florestal se encarreguem de retirá-lo dali. Hanna Limulja escreveu no livro “O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami” alguns recortes sobre a festa reahu, como ela mesma diz “com o intuito de indicar algumas aproximações com o céu dos mortos.” Algumas passagens desse ritual me tomaram por semanas o pensamento. Ela narra que após dias e dias sem dormir e comer direito durante a festa reahu, os yanomamis exaustos finalizam o ritual muito antes do tempo da festa que ocorre no mundo dos mortos porque os corpos anseiam por descanso. Então, a chave é o corpo, pensei comigo. Ou seja, não é possível desfrutar de algumas experiências em vida, porque o corpo é o limite. Diante da palavra cansaço, fui me dando conta de que estar em corpo e presença numa roda na rua ou num teatro falando meus poemas em voz alta era uma espécie de ritual. Pra’lém das funções biológicas que o corpo demanda — movimento, voz, ouvidos, olhos atentos — existem energias extrassensoriais que circundavam aqueles espaços no antes, durante e depois dos eventos.


Em outubro de 2017, conheci a poeta, slammer, contadora de histórias e atriz Gênesis, na Praça do Largo do Machado, na final do Slam das Minas RJ. Estimo que o público presente era por volta de 200 pessoas que rodeavam as finalistas: Andrea Bak, Brenda Lima, Carol Dall Farra, Gênesis, Neide Vieira, Viviane Laprovita e eu. Meu corpo despertou com outro corpo que me revelou a reza enquanto fala do poema. Esse outro corpo era o da Gênesis. Antes do livro “Terra santa”, o corpo da Gênesis me convocava naquela noite à espiritualidade. Nesta época, falar poemas em público ainda se apresentava para mim como um manifesto. Revisitando minhas memórias, compreendo que alguns portais foram abertos, sendo um deles muito poderoso: a origem do coletivo Slam das Minas RJ. Em mim, o portal aberto foi assistir uma reza enquanto fala de um poema numa praça que servia e ainda serve de moradia para pessoas em situação de rua, e que em outra década muito antes dessa, era um desses alagadiços que era fonte de vida das pessoas e bichos que habitavam esse espaço.


Ainda caminhando sobre o tempo, comecei a compreender que os espaços que comportam os eventos – que aqui podemos entender como um sarau, ou slam – nos conferem aquilo que herdamos como história particular e coletiva enquanto poetas atuantes que reivindicam e disputam as encruzilhadas. Como, por exemplo, o Sarau do Escritório ou o Sarau do Ratus Di Versus, que mobilizaram pontos de grande circulação dos vivos e dos mortos, na região da Lapa, no Centro do Rio de Janeiro – Salve Madame Satã. Como riscar o chão e friccionar aquilo que antecede e continua no presente como história?


Neste ponto, a memória é uma palavra importante. Nos poemas do livro, a memória é subtraída: “Esqueci novamente a palavra”; “A madrugada traz memórias de silêncio na casa, o cheiro de remédio e doença”. No esquecimento ou no silêncio existe uma falta. Por muito tempo estive distraída em observar o quanto meu esquecimento era o meu mecanismo de preservação para não ter que lidar com alguma dor recalcada. Por outro lado, ampliando para o coletivo, o esquecimento também é uma ferramenta que abrange interesses políticos. Quem escreve, o que escreve, como publica, o que circula são algumas das investigações que Heleine Fernandes realizou quando publicou “A poesia negra-feminina”. Neste sentido, após um trecho da Audre Lorde, a escritora escreve sobre a poesia como modo de nomear:

As ideias, vindas da destilação de experiências, são paridas, o que dá notícias do lugar de onde partem e do corpo que as vivencia e sente. A poeta fala para mulheres negras de um uso da poesia feita por mulheres negras, que ao longo da história da literatura tiveram que lidar com o silenciamento, com a invisibilidade e com a restrição. Lorde fala desde o lugar de mulher negra lésbica, concebendo o exercício da poesia como um modo de validar sentimentos e formas de pensamentos não hegemônicas, como modo de engendrar mudanças, dando à luz (tornando sensíveis e inteligíveis) outros corpos e formas de viver.

Não é a nomeação o princípio de algum movimento em direção à lembrança? Nomeamos e registramos as crianças, e neste momento alguma espécie nova no planeta é descoberta e imediatamente nomeada. No posfácio do “Terra santa”, a autora me diz: “Aprendi que tudo se perde e esqueci também essa lição”. Aqui o esquecimento é uma direção para buscar aquilo que se perdeu? O esquecimento como a própria lição a ser aprendida? O esquecimento como caminho para a perda? A perda do quê? Uma das coisas que mais gosto na literatura é como tornamos um único livro parte de várias histórias no mundo, seja pela associação por alguma experiência vivida ou porque aquele livro marcou algum episódio de vida de alguém por outros motivos sem ser a história escrita, necessariamente. Nesses versos sobre esquecimento, me tocou um ponto particular da minha vida: o meu esquecimento da perda durante muitos anos foi a reza. Perdi o hábito de rezar e por muito tempo nem sabia que tinha perdido. Retornei há pouco tempo à prática da reza, ao sagrado, à cura de alguma assombração do passado através daquilo que extrapolasse o limite do corpo e ainda sim, entendo que o limite me faz vida. No capítulo 2 do livro 4, “Crônicas II”, o verso “Rezo uma ideia fixa nascida por vontade, sustentada por desejo de penetrar no fluxo.” me cativa porque é justamente o retorno a esse fluxo que me faz acreditar que em mim habita algum fragmento ancestral.

 

Beyoncé lançou seu novo álbum “Cowboy Carter”, e, entre muitas referências que envolvem a ressignificação e a contação das histórias por outras perspectivas, me dedico à última música, “Amen”, em que as últimas palavras são “Say a prayer for what has been/We'll be the ones to purify our fathers' sins/American requiem/Them old ideas (yeah) are buried here (yeah)/Amen” em tradução livre “Faça uma oração por aquilo que tem acontecido/Nós seremos aqueles que purificarão os pecados dos nossos pais/Réquiem americano/As velhas ideias (sim) estão enterradas aqui (sim)/Amém”. Beyoncé e Gênesis se encontram na coragem e inteligência do fazer artístico em que a reza é um ponto de partida e de chegada daquilo que precisa ser confrontado e também confortado no coração das pessoas que acreditam na esperança de dias melhores.

  

 

Referências:

CAConrand. Rituais para poesia – Entrevista com CAConrad. Tradução: Julia Raiz. Edições Chão da Feira, 2022.

 

LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

 

SOUZA, Heleine Fernandes de. A poesia negra-feminina de Conceição Evaristo, Lívia Natália e Tatiana. Rio de Janeiro: Malê Editora, 2020.

 

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