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Não, ninguém faz samba só porque prefere


o texto que você vai ler agora foi escrito por Franco C. Nascimento, historiador, sociólogo e compositor de samba-enredo. convidei o Franco para conversar comigo esse mês, pela minha curiosidade nos processos de composição desse tipo de samba que embala outra das minhas grandes paixões: o carnaval. em seu relato, Franco traz, de uma maneira muito bonita, o componente mágico que pode atravessar a elaboração de um samba, gênero musical que nasceu nos terreiros de candomblé. mas também fala do que há de mais ao rés do chão nesse processo: a criação via aplicativo de mensagem, no horário de trabalho ou numa bancada de restaurante; um verso ou outro que surge colado ao ritmo do corpo em uma corrida na lagoa; e aquilo que talvez mais se aproxime das vivências em oficina: a escrita coletiva e, de algum modo, a lanternagem.


espero que goste.

Julya


Não, ninguém faz samba só porque prefere


Quando a escola da palavra me convidou para contar um pouco sobre o processo de escrita coletiva de um samba-enredo, pensei em várias possibilidades metodológicas: uma autoanálise antropológica, uma leitura sociológica ou uma descrição historiográfica, levando em conta tempo, espaço e circunstâncias. Mas, antes de começar a escrever propriamente, também liguei para o meu principal parceiro de composição, Laio Lopes, a fim de saber o que ele pensava sobre essas coisas que a gente enfia no papel com um monte de melodia, mas sem saber muito bem de onde vêm. Laio sempre me disse que, para ele, compor samba é uma bênção, um negócio que vem meio do nada e vai ficando pronto sem que a gente se dê conta do que está fazendo.


Da minha parte, confesso que às vezes tenho essa mesma sensação que de algum modo também foi descrita por João Nogueira e Paulo César Pinheiro em “Poder da criação”: Não, ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação/ Não, não precisa se estar nem feliz, nem aflito/ Nem se refugiar em lugar mais bonito/ Em busca da inspiração/ Não, ela é uma luz que chega de repente/ Com a rapidez de uma estrela cadente/ Que acende a mente e o coração/ É, faz pensar que existe uma força maior que nos guia/ Que está no ar/ Bem no meio da noite ou no claro do dia/ Chega a nos angustiar/ E o poeta se deixa levar por essa magia/ E o verso vem vindo e vem vindo uma melodia/ E o povo começa a cantar, lá laiá, lá lalaiá, laiá.


No entanto, considero importante descrever como se manifesta esse poder da criação quando a gente compõe um samba-enredo. Antes de mais nada, eu e Laio preferimos fazer esse tipo de samba. Conseguimos elaborar outras coisas, mas a nossa fogueira são as escolas de samba. Por isso, compor samba-enredo é uma preferência nossa. Por outro lado, acreditamos que não escolhemos, exatamente, participar desse universo enquanto compositores. Poderíamos ser ritmistas, cantores, dançarinos, aderecistas, coreógrafos ou até mesmo carnavalescos, mas parece ter sido a composição, por diferentes fatores, alguns até mapeáveis, outros não, o caminho que de algum jeito “nos escolheu”. Não que a gente disponha de alguma vantagem ou especialidade, mas é aquilo: sofrer, amar e se frustrar são sentimentos que fazem parte desse processo de criação, e ninguém passa por isso só porque prefere. Aliás, às vezes acho que gostaria de ter desenvolvido outras habilidades relacionadas ao carnaval, mas parece que a luz que chega de repente decidiu: vai fazer samba!


Como na canção de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, para nós não se trata de estar nem feliz, nem aflito, muito menos de se refugiar em lugar mais bonito em busca da inspiração. A gente compõe pelo telefone, por aplicativo de mensagens, em bancadas de restaurantes, no meio de uma corrida, no horário de trabalho ou sob qualquer outra circunstância corriqueira. São muitas as ideias que passam pela nossa cabeça quando alguma sinopse de enredo nos chama a atenção. Muitas e por vezes tão rápidas e incapturáveis quanto são as estrelas cadentes. Da minha parte, a sensação é de que estou tendo acesso a algum código linguístico e musical ao mesmo tempo reconhecível e irreconhecível. Mas, boa parte das vezes isso tudo se torna mera frustração.


Segundo a minha grande e querida amiga Ana Carvalho, as informações referentes à música e à poesia são enviadas de outros planos espirituais que anteninhas invisíveis daqui conseguem capturar. Eu acho toda essa história meio louca, porém, quando penso que, ao compor um samba, fechamos os olhos e ficamos cantarolando, cantarolando e cantarolando, como se a melodia estivesse chegando de algum lugar, até parece uma possibilidade. Para quem assiste, é uma situação engraçada, mas nós, compositores, sabemos que é nesse processo de insistência que um samba está sendo composto, gestado ou – quem sabe? – enviado. No filme Andança: os encontros e as memórias de Beth Carvalho, que chegou aos cinemas no fim do ano passado, há uma cena com Almir Guineto que ilustra muito bem esse momento cantarolante da composição musical, despertando boas gargalhadas do público, seja pelo cômico, pelo desconhecimento ou até mesmo pelo nervosismo.


Às vezes desconfio que o Laio tem as melhores anteninhas, mas também considero que entre outros amigos, parceiros e conhecidos estão grandes compositores brasileiros: Leozinho Nunes, Rodrigo Feijú, Danilo Garcia, Diego Nicolau, Fadico etc. Durante nossos processos de composição, Laio me liga ou mesmo manda áudio cantarolando melodias que considero sambas ainda em processo de gestação. Em meio ao deboche e ao sorrisinho nervoso, brinco que, se as compreensões de Ana são verdadeiras, as conexões com outros planos são feitas com antenas de Rádio AM dos “tempos do ronca”. Porém, a “tradução” dessas informações demanda muita paciência, trabalho e, em alguns momentos, que a gente tope participar de uma espécie de jogo de imitação. Mas, brincadeiras místicas, meta e multiversais à parte, não podemos esquecer que o samba nasceu nos terreiros de candomblé... E isso explica muita coisa para quem é de axé.


Em 2018, eu e Laio decidimos fazer um samba contra o preconceito racial para a Acadêmicos da Rocinha, escola que hoje está na Série Prata do carnaval do Rio. Passamos dois dias fazendo barulho com a boca pelo telefone. Ali, iniciávamos o que consideramos o nosso samba mais bonito. Era tanto ruído que até cansava, mas a gente sabia que precisava daquela agonia para captar a melodia e a música que queríamos. Acho que o Laio é muito mais poeta e talentoso do que eu, muito mais mesmo. Em nossas composições, o meu papel na maioria das vezes é estabelecer critérios para nossas melodias e letras. Laio me manda várias melodias em diferentes sambas, seguidas vezes, e eu simplesmente digo o que pode melhorar. Inclusive, muitas vezes nos damos conta de que essas melodias são familiares, seja porque nós mesmos já as compomos para outros sambas, seja porque reconhecemos a semelhança com as melodias de outros compositores. Mas essa percepção costuma vir só com o tempo, e referencias fazem parte de todo e qualquer processo, mesmo o batuque sendo um privilegio, uma vez que ninguém aprende samba no colégio.

Após muito exercício em meio a tanto barulho e melodia, Laio me mandou a primeira parte do samba: Jogado ao limbo/ sob o olhar voraz da cor/ quem provou desse dissabor/ sabe bem o que digo, irmão!/ algoz da evolução/ trama novas correntes/ ardor intermitente expõe as cicatrizes da nação/ são marcas atadas no alento da fé/ primatas perseguem o povo do axé/ meu sangue tinge de vermelho o matiz social/ a negritude clama a resistência contra o preconceito racial. E o refrão do meio: banana ouro e banana prata reluz na quitanda/ preta quituteira traz o brilho de Aruanda/ negro “ganha” alforria pra acordar de madrugada/ vai vender no trem das cinco a famosa bananada.


Depois de me mandar essa letra, com um sorrisinho de canto de boca, Laio falou assim: – Faz a segunda aí, papai. É verdade que antes ele me perguntou o que achei. Eu fiquei emocionado e disse que era uma das coisas que podemos descrever como maravilhosas. Mas depois da aprovação fui sugestionado a fazer a segunda parte do samba. Nervosismo à flor da pele, só ficava pensando como conseguiria manter a qualidade do samba sem ter a mesma capacidade. Precisando apresentar uma resposta à altura, saí para fazer a coisa que mais gosto: correr.


Em meio à preocupação com a velocidade da corrida e a minha capacidade respiratória, comecei a respirar de maneira ofegante. Enquanto fazia todo o esforço possível para manter a oxigenação, de repente saiu do meu desespero: ÔÔÔÔ... Parei de correr na hora e fiquei pensando. Pensando pouco, porque alguns instantes depois mandei um áudio para o Laio com a seguinte letra: ÔÔ... Na própria escrita o povo negro se liberta/ nobre reinado a festejar/ na arte experimento pelos palcos a magia... nanananana a poesia... E ficou nisso.


No dia seguinte, Laio me ligou e disse que gostou muito da minha proposta, contei o processo e decidimos pela melodia que vagabundeava pela Lagoa. Continuamos a barulheira, pois precisávamos terminar essa segunda parte. Ele propôs o seguinte: O samba louva em seu quilombo a poesia/ brota da terra a candeia dos meus ancestrais... Eu achei bem legal e ficou por isso mesmo. No final, quando estávamos às vésperas da gravação, acabei apelando para as informações da sinopse: Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho do olhar/ a minha Rocinha jamais deixará de lutar. O outro refrão ficou assim: No azul mais bonito eu quero voar/ no branco da paz me deixo levar/ em tom verdejante exijo respeito/ ta aqui uma “banana” para o seu preconceito.


E assim fizemos o nosso samba que consideramos mais bonito. Poético, mas também bem malicioso. No final, falamos sobre preconceito, criticamos a reforma trabalhista e chamamos o povo para a porrada. Ninguém se ligou, só a gente.

Além desse, gestamos outros sambas que considero bem legais, o mais recente foi para a Viradouro, no qual conjugamos conceitos antropológicos com perspectivas religiosas. A segunda parte ficou assim: Destino, santifica o manto/ Fundamento, acalanto, um caminho a ensinar/ No rio, canjerê e sacristia/ Antropofagia da fé a formar esse país/ Meu fardo se rende ao luso bastião num fado/ Oxalá as águas lavem do pecado/ Aflora a imaculada redenção/ Retinta seja uma nação que luta contra a intolerância/ Espelha a África de quando era criança/ Reescreve o meu Brasil.


Em meio a metáforas e à consciência da existência de elementos da ordem do encantamento, do que parece ser extraterreno, do religioso, para uns, e do multiversal, para outros, os sambas de outros compositores, assim como a sinopse do enredo, são elementos que também contribuem fortemente para a realização dos nossos sambas. Falar da nossa cultura, de ancestralidade e também da nossa gente é, para mim, sempre desafiador e extremamente apaixonante. Motivo para a explicação de coisas inexplicáveis.


Eu gosto de gestar, telegrafar ou escrever sambas-enredos, mas também gostaria de ser cantor, desenhar, ser um ótimo dançarino ou instrumentista. De todas as possibilidades, acho que fazer samba é a menos atraente em virtude das inúmeras “invirtudes” que acontecem por aí. Mas, como ninguém faz samba só porque prefere, é isso que me resta.

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