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Música do mundo: introduções à poesia

 



 

Toda geração precisa fazer e refazer o trabalho infinito de produzir um ensaio sobre poesia que sirva a poetas e não poetas. Na verdade, cada geração precisa de alguns livros sobre o assunto, obras que tentem responder, ainda uma vez, ao desafio de ler, ouvir, dizer, ver poesia diante dos dilemas de seu próprio tempo, isto é, diante das diferenças históricas que dão às histórias da poesia sua metamorfose contínua.


Para ficarmos apenas no século passado, quero relembrar de cabeça alguns clássicos do gênero, tais como ABC of reading, do norte-americano Ezra Pound (1934), El arco y la lira, do mexicano Octavio Paz (1956), O que é comunicação poética, do brasileiro Décio Pignatari (1987). Haveria vários livros mais, de grande importância, que mereceriam ter seu nome numa lista mais pensada; no entanto, tomei esses três que vieram primeiramente à memória, por serem escritos por três pessoas que dedicaram uma vida à leitura e também à prática de poesia, e também por serem ensaios inteiros dedicados ao assunto, com começo, meio e fim, e não um conjunto de ensaios dispersos. Em cada um desses momentos, o jogo da poesia entrou de novo em discussão, a partir de e diante de questões prementes de cada época. Entendam bem: nada ali se resolveu, mas se reconfigurou.


Nesta mesma seara, Tarso de Melo fez neste ano de 2026 um desses livros para sua própria geração, Música do mundo: introduções à poesia, que acaba de ser publicado pela editora Fósforo. É uma obra razoavelmente breve para o tamanho do seu escopo: 184 páginas, incluindo sumário, epígrafes, bibliografia e índice onomástico, mas contém tanta coisa ali dentro que merece um bom dedo de prosa.


Qualquer pessoa interessada em poesia no Brasil, a esta altura do campeonato, já deve conhecer o nome do nosso autor; no entanto, se alguém mais desavisado aparecer por aqui, segue o informe básico. Nascido em 1976 em Santo André (SP), Tarso de Melo tem uma trajetória mais do que visível como poeta, professor e editor. Não posso esquecer que teve toda uma trajetória dedicada ao Direito, entre pesquisa, escrita, advocacia e docência; porém o que importa mais aqui é que começou editando poesia e literatura em 1998, na revista Monturo, com Fabiano Calixto e Kleber Mantovani; depois veio a editar também a revista Cacto, em 2002, com Eduardo Sterzi e, em 2006, K Jornal de Crítica, num processo contínuo de trabalho nos bastidores, de modo que agora vem editando a coleção mensal do Círculo de Poemas, pela própria Fósforo. Estreou na poesia com A lapso, em 1999, e já passou de uma dezena de livros de poemas, até As formas selvagens da alegria (2022), obras que vêm recebendo atenção crítica constante. Recentemente, Tarso vem exercendo com mais constância e visibilidade também o trabalho de crítico literário, como os ensaios Um mergulho e seu avesso, em diálogo com poemas de Alberto Pucheu (2022), e Desdobrar Paulo Leminski (2025), além de uma série de intervenções públicas que envolvem leituras, curadorias, oficinais etc. nas últimas décadas. Quase trinta anos de vida pública na poesia: se isso não é uma vida de poeta, eu não saberia bem dizer o que seria. Daí minha vontade de colocar este livro novo na lista dos livros de poetas que tratam de poesia em sentido amplo.


Vamos à Música do mundo.


Desde a quarta capa, somos informados de que este é “um ensaio descontraído, ideal para quem deseja adentrar o vasto mundo da poesia”; e tal promessa é de fato o que se cumpre. Depois de uma breve “Apresentação” que situa o projeto do autor de “abrir algumas portas e convidar novos leitores e leitoras” (p. 12), com uma abordagem “mais parecida com a experiência de um leitor não especializado” (p. 13), temos seis partes que tentam manter esse misto de agudeza e descontração.


Na primeira, “Para começo de conversa”, Tarso busca enfrentar perguntas como o que é a poesia, o que é poético, linguagem poética, e defender que ali se encontra, dentro das mais variadas fôrmas e formas, também modos de conhecimento. Como pessoa do nosso tempo, a predileção é mesmo pela aporia: o que é a poesia, talvez ninguém responda a contento; podemos, então partir para uma explicação negativa – arriscar dizer o que a poesia não é, pois talvez no que ela não é se encontre também poesia.


A segunda parte, “Poesia: que história é essa?”, busca dar alguma visão da enorme diversidade que as artes verbais assumem em variadas culturas humanas. Tarso reconhece que tradições distintas apresentam características singulares e irredutíveis, que, por outro lado, não cessam de ser recriadas e reproduzidas em outras culturas via tradução e adaptação, com novas diferenças; nesse sentido metamórfico, poesia é tradição, claro, mas, como ele bem lembra “não raro, esses indivíduos criam contra a tradição. […] Reinventam o que herdaram” (p. 50).


Destaco aqui a reflexão dedicada ao lugar da poesia brasileira, quando lemos o seguinte: “Se fosse necessário cumprir a tarefa árdua de delimitar uma produção que ainda está em curso, e destacar apenas uma característica da cena poética contemporânea, eu destacaria a diversidade” (p. 61, grifo meu). Embora seja uma afirmação que vale apenas para o nosso cenário atual, eu diria que é a defesa da poesia mais recorrente ao longo do livro; o que ao mesmo tempo explica porque este ensaio está feito para leitores e leitoras de agora, quando os tradicionais modelos canônicos de organização da tradição caem por terra, antes tarde do que nunca.


A terceira parte se chama “Seres de linguagem” e, como o próprio título anuncia, busca tratar da importância da poesia para seres de linguagem como nós humanos somos. Importa, portanto, pensar que “o que falamos nunca é totalmente nosso” (p.  65, grifo do autor), ao mesmo tempo em que, num poema criado por um de nós, “tudo significa” (ibid.) Nesse complexo jogo, o poema pode se tornar um espaço que clama por ser revivido mais e mais vezes, porque vem de antes de sua criação e aponta indefinidamente para um diálogo interminado, talvez interminável. Daí que Tarso dedique algumas páginas importantes para pensar o crescimento necessário de poéticas antes minoritárias, como as escritas por pessoas negras, mulheres, transsexuais, etc., que agora passam a representar muito do que é a poesia nacional.


“Tudo que um poema pode ser” é o nome da quarta parte, dedicada a apresentar certa variedade de formas poéticas, bem como a questão da oralidade, da canção e da visualidade em poesia. Problemas introdutórios sobre a noção de verso e de metrificação em língua portuguesa são ali exemplificados com a inteligente citação integral do poema “A tempestade”, de Gonçalves Dias, para depois passar rapidamente por formas fixas como o haikai japonês e parte de sua aclimatação em terras brasileiras. Tarso também faz o exercício de lembrar as grandes rupturas de tema e forma introduzidas pelas obras de Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Walt Whitman, ainda no século XIX, para assim pensar o verso livre e o poema em prosa, até cruzar com a nossa poesia concreta, em meados do século XX, com suas implicações “verbivocovisuais”. Daí o corolário do autor: “A expressão poética é, por definição, multidimensional: falada cantada, pintada, esculpida, encarnada, ilustrada, moldada, lançada aos ventos. E até mesmo sem palavras, se levarmos em consideração que a linguagem verbal é apenas uma das matérias de que os poemas são feitos” (p. 123). Como resultado de tantos anos de vanguarda, de tantos encontros transculturais, talvez reste apenas dizer que um poema é aquilo que é enquanto dura; portanto, é o poema que pode dizer o que ele é, e o que ainda pode vir a ser, pois cada novo poema reinventa a tradição anterior e lança caminhos para as tradições futuras.


A quinta parte ganha o nome “Tantas portas” e primeiro discute se poesia deve sempre ser útil. Tarso envereda pela proposta de Paulo Leminski, de que a poesia é um “inutensílio”, ou seja, a poesia seria parte das coisas que são a própria razão da vida e, portanto, não precisaria de uma utilidade específica; ela está no mesmo campo essencial para a existência ocupado pela alegria de um gol, pela amizade, pelo orgasmo etc. Após essa discussão, talvez esteja o momento que mais pode auxiliar às pessoas que vêm chegando agora ao mundo da poesia, já que passa a oferecer algumas estratégias de leitura. Diante do desafio de ser acessível e breve, Tarso apresenta uma variedade curiosa de poemas e poetas, passando de obras bastante claras a experimentos que assustam muita gente numa primeira espiada: versos de Miriam Alves, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Adão Ventura, Augusto dos Anjos, Lewis Carroll, Fernando Pessoa, Orides Fontela, Ana Cristina Cesar, Paulo Henriques Britto e Caetano Veloso recebem a maior atenção. Aqui realmente ele parece abrir portas, como anunciava na “Apresentação”.


Por fim, o livro tem uma bibliografia que funciona como a última parte, intitulada “Para continuar a conversa”. Ali se encontra tudo que foi citado e mais algumas obras que Tarso de Melo considerou e considera importantes para qualquer conversa sobre poesia hoje: vamos encontrar ali nomes tão diferentes como como Theodor Adorno, Audre Lorde e Matsuo Basho, para formar uma tríade peculiar. É muito boa a seleta, que se estende por mais de dez páginas de variedades muito vivas, que mantêm o grande tom de abertura e inacabamento que atravessam todo o livro. Nesse sentido, o subtítulo também guarda toda sua força: estamos diante de “introduções à poesia”, sem qualquer anseio de resolução ou unidade; por isso, apontar eventuais ausências seria mera picuinha inútil, sem a força dos inutensílios.


Depois desse passeio um tanto apressado pela Música do mundo, eu gostaria de levantar duas lebres rapidamente, que me chamaram muito a atenção. A primeira é a seguinte. Se, como eu disse no começo, Tarso de Melo é um poeta que escreveu um livro sobre poesia, é gritante como ele evita falar da sua prática ativa na escrita de poesia: desde o início ele prefere se apresentar como um leitor entre mais leitoras e leitores. Pode ser uma captatio benevolentiae, para trazer todo mundo pra perto, sem medo desse bicho perigoso e indócil que é um poeta. No entanto, flagra-se ali precisamente o vazio da poesia como algo que não cessa de ser feito.


Com isso, Tarso também opta por evitar obras de poetas mais jovens, nascidos nos últimos 30-40 anos. A maioria esmagadora das referências retorna a nomes já bem consagrados: há muito Drummond, Cabral, Pessoa, Paz, Campos; e nada tenho contra eles, que realmente ofertam muito do nosso tutano agora; no entanto, aqui o autor parece se esquivar dos desafios de seu tempo e também dos paradoxos de termos tanta produção e tanta diferença. Longe de ser um grande defeito do livro, talvez seja mesmo o sintoma do nosso tempo, e algo ainda mais marcante quando o poeta é, há tanto tempo, também um editor. Com isso, o ensaio realmente se dirige mais a quem está chegando à leitura de poesia, evitando os espinhos do roseiral de poetas que ainda buscam algum lugar ao sol.


O segundo ponto que parece fraquejar é a hesitação entre valorizar outras poéticas fora da tradição do livro e o fato de terminar citando poucas delas. Há momentos maravilhosos, em que lemos fraseados como “De Homero a Mano Brown” (p. 103); e Tarso bem que se esforça por reconhecer a importância de uma variedade de poéticas extraocidentais. No entanto, o livro ainda viaja pouco para fora das páginas dos livros encadernados: para além do haikai, que recebe bela atenção, pouco vemos os cantos de matriz africana, os cantos indígenas das Américas, ou mesmo as poéticas populares das cantigas de ninar, das narrativas de terror, dos pequenos cantos de magia espalhados pelo mundo, etc. Sim, elas aparecem, por exemplo, rapidamente nas mãos do português Herberto Helder, que “mudou ao português” muitas delas; porém, diante do anseio por um mundo aberto de poesia, resta um eurocentrismo que ainda toma a maior parte do ensaio. É parte incontornável da tradição poética na cultura brasileira, com todos nós sabemos; só que a tensão do presente pede, quem sabe, um novo capítulo em futuras edições.


São essas as ressalvas que um livro como este, que deve ser saudado de imediato, pode receber num primeiro momento. Certeiro no tom, no público em que mira, na capacidade de abordar temas difíceis com uma clareza fora de série, Música do mundo nasce com um potencial de sair do nicho em que a poesia tem sido enfiada e trancada há tempos. Jogá-la de novo e de novo ao mundo é um papel tão importante quanto o de escrever os poemas propriamente; porque a poesia é mesmo um ato comunitário. 


Desconfio que esta Música do mundo vai circular muito, como deve, e aposto ainda que deve abrir muitas portas, que não sabemos com certeza aonde vão dar, felizmente. São introduções de uma enorme introdução inacabável, da grande macroarte inabarcável. Como leitor e poeta que sou, só posso agradecer.

 

Guilherme Gontijo Flores para Sobrescrever

 

 

 

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