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cardiografia com os fusos abalados

Atualizado: 10 de out. de 2023

Marília Garcia entre tempos


por Rafael Zacca




1. Toda vez que leio Marília Garcia tenho essa estranha sensação de que ela está cercada por uma camada espessa de tempo. Penso naquelas imagens dos pintinhos nascendo dos ovos com uma fina e pegajosa membrana em volta. Mas não é bem isso. Porque o pintinho dentro da casca nas obras da Marília é um pássaro mais velho. A camada que o alimentou e que agora ele rompe foi formada pela experiência. Como um muco. Essa camada é o tempo. 2. Leio o poema que dá título ao seu mais novo livro: “Expedição: nebulosa”. É um poema-ensaio. Lirismo e pensamento, a experiência e as correlações. Esse texto se corresponde com muitas outras obras de arte. Destaco duas delas. “Echo” de Richard Serra, composta por duas placas de metal de 18 metros enterradas no chão no quintal do IMS de São Paulo.[1] E o poema “Notícias para Nira”, que está no livro Automatógrafo de Victor Heringer.[2] Nesse poema, Victor fala que “o tempo aqui anda meio estranho” – e também, vendo a paisagem do Rio, que “a linha da Serra dos Órgãos (meus também) / ainda é eletrocardiograma (meu /e do Rio)”. 3. O poema-ensaio de Marília tem um prólogo que lança a pergunta estribilho: “quanto tempo dura o presente”. Está anunciada a matéria do ensaio. Mas o ensaio, segundo Aira, é o encontro de dois temas. O segundo tema desse poema é o luto – da cidade, do Rio, e do amigo, Victor. Como Marilia liga esses temas? Com mediunidade. Quer dizer, lidando com o que neles é espectral, fantasmático. Quer dizer, lidando com eles como se o passado durasse no presente. Quer dizer, lidando com o passado como presente. 4. Depois do prólogo o poema tem 10 atos. O primeiro fala de “Echo” de Serra. O segundo, apresenta a tese de Haroldo de Campos (que deve ter tomado isso da introdução do Mal-estar na civilização de Freud) de que São Paulo é um palimpsesto. Imaginem só, São Paulo cheia de camadas. De quê? De tempo. Como o inconsciente de Freud. Tudo sobreposto. O terceiro ato desloca o palimpsesto: a memória da poeta projeta o Rio sobre São Paulo. Ou sob São Paulo. A cidade de partida aparece sob a cidade de chegada como um fenômeno de possessão. Você vê uma na outra. Mas não é na paisagem (na matéria-espaço) que o palimpsesto, senão estaríamos falando de uma metamorfose. É na passagem (na matéria-tempo) – no gesto. Na passagem da paisagem à passagem. Nesse deslocamento do significante que apresenta um “i” escondido no “s”, como se uma letra pudesse, para se tornar outra, simplesmente amolecer.


5. No quarto ato Marilia fala de David Antin e de seus talk poems. Ele cria um paralelo com as performances de Marília, porque seus poemas-ensaio muitas vezes foram falados antes de figurar nos livros. E o que temos quando os vemos por escrito é o rastro dessa fala diante de nós. A escrita é essa estranha presença do passado no presente. Essa estranha presença do presente no passado. A escrita imita esse movimento da memória: ela configura não tanto a aparição de um fantasma do passado no presente, mas nos transforma em fantasmas visitando o passado. Tentando ver, mudar, mexer, viver de novo algumas coisas. Referindo-se a Antin, Marilia diz que “para estar no presente / ele precisa do improviso”. Falamos com o passado, mas o passado não responde de volta. Num dos diálogos de Platão há uma brincadeira divertida de Sócrates com Fedro (o personagem que dá nome ao diálogo). O jovem está muito impressionado com um texto de Lísias. Os dois encaram o texto de Lísias, e Sócrates, mais desconfiado da escrita e confiando na palavra viva do corpo presente, incita Fedro a interrogar o texto sobre certos aspectos de seu sentido. Mas o texto não responde de volta. 6. O quinto ato retoma “Echo” num dia de chuva, e o sexto retoma o mito de Narciso e Eco. A ninfa está apaixonada por Narciso, mas, amaldiçoada, só pode falar repetindo o que os outros dizem. Quando Narciso se aproxima da floresta onde ela se esconde, sente sua presença, e, aqui é Marília quem o conta, “o seguinte diálogo acontece:”




Eco reproduz o que diz Narciso e não reproduz. É um jogo de repetição e diferença. A memória reproduz o que aconteceu no passado? Não reproduz? É um jogo de repetição? De diferença?


7. O sétimo ato do poema nos conta de outra obra de Richard Serra. “Equal-Parallel: Guernica-Bengasi”,[3] que “sugere que o ataque aéreo a civis em guernica”, diz Marília, “teria um paralelo com um ataque na líbia”. Mas a poeta está interessada em contar que essa obra pesava 38 toneladas e desapareceu para sempre. E que quando se fez uma réplica dela, a nova obra (o elemento de repetição) era quase idêntica anterior, exceto que agora ela tinha um a mais: uma história. Como a memória, que acrescenta ao ocorrido, quando o conta, a história de contá-lo e inclui, nele, o seu futuro. O oitavo ato retoma o tema do sumiço das toneladas para falar da demolição do Elevado da Perimetral no Rio de Janeiro. É só no nono ato que a poeta nos explica que leva em si o desejo do outro: Victor Heringer, que também tinha se mudado do Rio para São Paulo na mesma época em que Marília, queria fazer um projeto a partir de uma superposição dos mapas das duas cidades. É o desejo do amigo que trabalha no poema de Marília, com ela.


8. Na poesia mélica arcaica grega conhecemos um personagem que pode amolecer poetas, deuses, mundo. Eros. Eros, o “derrete-membros” (essa é apenas uma das traduções possíveis para “lusiméles”, traduzido mais frequentemente como “solta-membros”). Desfaz as articulações, a forma rígida. Prepara nossos corpos para uma transformação. Nos deixa lânguidos. Ele faz o mesmo com o tempo. Por isso o tempo cronológico o toma como inimigo. Eros é amigo das formas dobráveis do tempo. Há um quadro de Pierre Mignard, em que Cronos está tentando cortar com uma tesoura de ferro as asinhas minúsculas de Eros. Na rememoração, é Eros quem toma as tesouras das mãos de Cronos.


9. Depois da morte do amigo, fica o seu desejo na amiga. Essa superposição dos desejos se apresenta em outro trabalho que planejaram juntos. Isso é contado no final do nono ato. “Expedição nebulosa” (sem dois pontos – igual e paralelo, repetido e diferente, com relação a este poema-ensaio que lemos agora) era um poema de Marília a partir do qual Victor fazia “uma intervenção gráfica / sobre um mapa / da ‘calota polar’”. Em 18 de dezembro de 2020, quase dois anos depois da morte de Victor, Marília faz um post em sua coluna no site da Companhia das Letras (editora do livro Expedição: nebulosa) chamado “Um recado na secretária eletrônica”.[4] Nele vemos a intervenção visual de Victor que leva o nome do escrito de Marília, “expedição nebulosa”. A certa altura, a poeta diz:

No primeiro ano da sua morte, escrevi um texto em que “conversamos” um pouco. Chamava-se “Expedição nebulosa”, que era o mesmo nome de um trabalho que fizemos juntos: um poema meu para o qual você fez uma intervenção visual (imagem que abre o post). O novo “Expedição nebulosa”, feito já depois da sua partida, trazia falas suas, versos seus e conversas nossas. Agora eu falo sozinha, continuo nesta expedição, mas queria ter você aqui perto.

10. Tudo isso é vertiginoso. Agora você começa a se sentir como Marília. Mas aí vêm mais umas camadas de muco. 11. Os recados na secretária eletrônica são como os textos escritos. Você pergunta coisas pra eles, mas eles não respondem de volta. Até aí tudo bem. O problema é que os textos ficam nos perguntando coisas, e nós queremos responder de volta, mas não tem como. Quem os deixou não está mais ali. 12. Em 5 de julho de 2012 o “automatografo”, usuário do youtube de Victor Heringer, publicou o videopoema “oi você sumiu”. A descrição nos conta que o texto que ouvimos, na voz do poeta, são trechos de mensagens na secretária eletrônica do celular nunca respondidos. O primeiro som que ouvimos é o de interferência entre duas tecnologias, celular e computador. E um prego na parede. E a primeira frase que ouvimos é: “oi, Victor, como está o tempo aí hoje no império de Água Santa [um bairro da zona norte do Rio]?” Os poemas da Marília me parecem uma tentativa de responder a essa pergunta: “oi, Marília, como está o tempo aí hoje?” Mas o tempo gruda em sua pele, suas roupas, e tudo o que a poeta pode tentar fazer é abrir os braços e pernas enquanto tenta mostrar a consistência desse muco. A última mensagem do “oi você sumiu” do Victor começa com a frase: “olá, amiguinho dos fusos abalados”.


13. Sobre Marília, certa vez escrevi a partir de outro trabalho seu, e comentei o uso que a poeta fazia então da palavra “spleen”.[5] Naquela ocasião, ao comentar os versos:



Eu dizia que


Sim, sobre o tempo, pois é sobre isso que fala a palavra spleen (derivada do splēn grego, que significa “baço”, onde, para Hipócrates, se produzia a bílis negra, a melancolia). Ela está ligada à história moderna da poesia, quando Charles Baudelaire incorporou a palavra ao seu vocabulário, e com a qual designava um estado melancólico, mas também tedioso. Spleen se referia a uma instabilidade emocional subjetiva diretamente relacionada a uma instabilidade climática objetiva, isto é, a um tempo nublado. Mau tempo significa, do ponto de vista do spleen, uma indistinção entre melancolia e céu fechado. Num poema de Baudelaire que leva por nome “Spleen”, lemos (na tradução de Ivan Junqueira) as estrofes:

A frase enunciada no poema de Marília Garcia, “hola, spleen”, era sobre o tempo, mas não somente porque aludia a uma condição climática, senão porque aludia também a uma desestruturação temporal. Ou a uma condição anacrônica da subjetividade melancólica. (...) A voz que produz sentido não pode viajar intacta entre dois aqui-e-agora (...).

Aliás, Baudelaire também está presente em “Expedição: nebulosa”. Mas com outro poema: “O cisne”. O trecho em que poeta solta um lamento, hélas, diante da Paris-palimpsesto que não para de mudar. Marília escreveu sobre esse poema em sua coluna também, no post “Com Baudelaire à mesa”.[6] Onde também comenta questões de melancolia a partir da expressão hélas (que ecoa o “hola” em espanhol, com sentidos completamente diferentes – cujo sentido ecoa o “oi” em português), e menciona o “spleen” do poeta. Mas eu não acho que a melancolia seja o afeto predominante em “Expedição: nebulosa”. 14. No décimo ato, a poeta nos conta do dia em que concluiu o poema-ensaio “Expedição: nebulosa”. Não deixa de ser estranho que ela use o pretérito imperfeito para o verbo “terminar”: “quando eu terminava de escrever / este texto”. Esse verbo situa o agora da escrita cindido entre dois passados. Ou bem o poema foi terminado e não pode falar de si mesmo dessa forma, ou não foi terminado e ainda se pôde escrever. É justamente no pretérito imperfeito que ele se apresenta em sua conclusividade-inconclusa. O texto aparece, estranhamente, como fantasma de si mesmo.


15. De novo: no décimo ato, a poeta nos conta do dia em que concluiu seu poema-ensaio. Conta que era o dia em que completava um ano da morte de Victor. Conta que preparava uma omelete. Que ao quebrar um ovo, reparou que a data de validade era 27 de março, o dia de nascimento de Victor. Ela se pergunta uma vez mais quanto tempo dura o presente, e, por fim, anuncia que tiveram um último diálogo. Ela começa essa conversa com o título da obra do amigo, como se deixasse um recado na secretária eletrônica: “oi você sumiu”. Apesar de escrever “e ele disse”, não há resposta do amigo. Os dois pontos ficam vazios, sem linha de diálogo. Mas ela continua: “como anda o tempo por aí?” (à maneira dos recados deixados em seu trabalho de 2012). E ele diz: “ ”. Ela tenta dizer mais algumas coisas, e quando parece desistir, emendando uma fala na outra, acontece o seguinte milagre:



Você reparou que a primeira resposta do Victor acontece algo parecido com um eco, mas um pouco diferente? O que Marília Garcia está tentando fazer? Ouvir um coração bater? Ou cardiografia, a escrita do coração amigo? Entre os dois, podemos imaginá-la escrevendo como se encostasse o ouvido no peito de Victor.


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Rafael Zacca é poeta e crítico. Professor no departamento de filosofia da PUC-Rio.

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