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A tocadora de palavras

Atualizado: 6 de out. de 2023

Um percurso pel’As palavras trocadas, de Laura Erber


por Luciana Di Leone



I

Não tem troca sem toque. Não tem separação sem partilha. As palavras e os corpos se tocam e se destocam, ao mesmo tempo, irremediavelmente. Essa é a ferida na qual Laura Erber parece remexer com fúria, mas também com delicadeza.


II

2004. Numa parede branca aparece a silhueta de uma pessoa. Apenas um contorno. A silhueta se mexe, adquire formatos diversos, ora uma bolinha de corpo grupado, ora uma pessoa em pé, de braços abertos. Branca a parede ao seu redor, branca por dentro também. Branca, a não ser porque dentro também aparecem algumas palavras manuscritas. E em cada movimento se cobrem e descobrem diversas partes do manuscrito. Aquilo que está escrito não pode ser lido totalmente, a silhueta do corpo cobre e descobre a linguagem. Em determinado momento, a silhueta encontra, jogada no espaço da parede, uma palavra caída e tenta colocá-la dentro de si. A silhueta toca, pega a palavra manuscrita com a ponta dos dedos. Tenta, mas não consegue, grudá-la no próprio corpo. As palavras se tocam, se trocam, se atritam com o corpo, se separam, caem.


Trata-se de O livro das silhuetas, vídeo instalação de 2004, de Laura Erber (e algo similar acontece em Nome próprio, outra vídeo instalação, de 2006).[1] Na verdade, talvez toda a produção de Laura Erber possa ser lida a partir desse tocar-se e trocar-se entre os corpos e as palavras, entre o abraço e a falha. Certamente isso acontece no seu último livro: as palavras trocadas.


III

2013. Trocar palavras é trocar cartas, em alguma medida. É uma coisa séria, porque é nessa troca que se pensa não apenas a própria história e a própria experiência, mas a História e os modos de narrar a História. Uma troca de cartas não necessariamente é uma troca privada, nela se ativa todo um modo de pensar a linguagem, de pensar os lugares de fala estáveis. Se a História fosse contada por cartas, teríamos, certamente, outra História.


Na hora que se explode a origem da história para que ela se escreva em movimentos endereçados, a própria cronologia se coloca em questão. A história fica sem cabeça porque “entre o silêncio do remetente e a mudez do destinatário a estória se rompe”. Esse parece ser o motor de Musa sem cabeça: a fábula do contemporâneo, espécie de intervenção no MAM-RJ que consistia em enviar telegramas ao curador Luiz Camillo Osório. Telegramas com pequenas histórias, reflexões entre a crítica e o poema (“o poema está sempre a caminho de um outro começo”), telegramas sempre com perguntas:


O que queremos? Uma história que não seja nem totalmente crível nem tão incrível que pareça uma piada ansiolítica tirada de uma história impossível da arte brasileira?

O que queremos? Uma arte brasileira que seja uma história?

O que queremos? Uma história brasileira que seja uma arte?

O que queremos? Queremos perdão por pretensões grosseiras e perdão por, na maioria das vezes, não chegarmos nem a produzir uma história ficcional nem reverência comoção ou interesse no leitor.

IV

Sabendo que trocar e tocar palavras é, para ela, tocar e trocar as interpretações do mundo, que é esse jogo o que marca - em palavras grosseiras - a “disputa de narrativas”, entro no livro novo de Laura Erber.


V

2023. As palavras trocadas. Duas epigrafes, de Anne Carson e de Hilda Hilst, nos dão algumas estratégias para nos aproximar do livro. Por um lado falam de uma vontade de restauração do encontro (“restaurar o vermelho dos corações vermelhos”); por outro, a constatação da desordem que se instaura quando tentamos colar nossa boca à boca do outro, quando se trocam palavras e salivas. A delícia e o atrito do estar junto se anunciam como mote, como estrutura, como paradoxo que vai ser sustentado, que vai se manter desacordado, com alguns dispositivos (o oximoro, “devagar/urgentemente”; os duplos sentidos, “os dias contados”). Gostaria de desdobrar dois desses dispositivos: um estranho nós que costura os poemas, um estranho lugar estranho onde o nós enuncia.


VI

Endereçamento é um conceito que nos permitiu a vários críticos pensar um gesto recorrente na poesia contemporânea brasileira.[2] O gesto de explicitar um destinatário, um destino, um envio. Gesto que falava de certa vontade de se lançar do próprio texto, de declarar a sua insuficiência, o colapso de qualquer pretensão de autonomia. Esse endereçamento vinha acompanhado de um eu paradoxalmente explicitado, mas tirado de qualquer centralidade: “é para você que escrevo”, dizia Ana Cristina Cesar.


Laura Erber também não para de escrever cartas, de trocar cartas, de pensar em cartas – além dos telegramas ao MAM, seu trabalho crítico/artístico ao redor do poeta Ghèrasim Luca, alguns dos seus desenhos, e dos seus livros infantis são prova disso. Mas achar o gesto de endereçamento não é tão simples no novo livro, porque os poemas não são explicitamente um chamado ou uma resposta, quase não perguntam, quase não pedem. Aqui, o eu e o você estão desbotados, na maioria dos poemas, atrás de um nós que que enuncia. Ardiloso nós. Escorregadio nós. Improvável nós. A quem toca? Com quem troca um nós? Quantos eus se atrincheiram nesse plural?


Em “Dois tempos” (11), o primeiro texto do livro, fala-se de um homem e uma mulher que “até aqui chegaram”, mas são capazes de “ir mais fundo enquanto o tempo exibe a órbita excêntrica dos seus mortos” (11). E embora sejam eles, há algo no texto que preanuncia um nós estranho. Estranho, um pouco porque o leitor participa dessa cena – somos sempre um pouco aqueles que “até aqui chegamos”, em uma constatação simples, que se torna complexa quando se encena a abertura: iremos além, iríamos? Outro pouco porque desconfiamos de qualquer onisciência de quem conta os encontros e desencontros desse homem e dessa mulher. Eles “insistem” na travessia juntos, nos “ritos sôfregos de um corpo que recebe a verdade de outro corpo”, mas com uma marca de fim, com “os dias contados”, porque afinal “continuamos nadando/ para o fundo” (25). Afinal, este é um livro de poemas, e narradores dentro deles são sempre suspeitos.


Talvez esses mesmos homem e mulher estejam no terceiro texto: nomeados como “jogadores de cartas” (15) ou “lançadores” de palavras/dardos dentro da boca um do outro, “se atravessam”, para no quarto poema darem finalmente a cara do nós com o título: “Atravessamos”. Se fala de nós, nós que falam(os) as palavras trocadas. Porém, estamos acostumados a que, quando a poesia fala de nós, geralmente nos remeta a um sujeito coletivo, ora abstrato, ora comunitário, geralmente universal. Como se houvesse um comum nessa primeira pessoa do plural. Mas depois de trocar umas palavras, de qualquer tentativa de diálogo – real ou imaginado – essa comunidade amena se dilui: “até aqui chegamos” com a ilusão de comunhão total.


Com o livro nós atravessamos tempos e espaços, vendo como o vento junta os restos, e tentando colher alguma palavra não tão imprecisa, algo que nomeie o estar junto ou o viver junto de forma clara, que estabeleça uma amarração: “O reconhecimento mais ou menos completo de que tudo é assim porque é. Entre nós, quero dizer” (19). Porque amarrar também é urgente:


devagar

urgentemente

adiamos os dias de um

desencontro que começa

antes do começo da própria

vida (35)


Inexoravelmente, o nós também se dilui, e dá espaço a um eu afetado, marcado, mas bastante: “escrevo com o que você me faz/ quando não fazemos nada”; “as palavras que troquei/ sem saber com quem/ trocava” (37). Falar com e por mais subjetividades do que um eu vai se enrarecendo. O eu se reconhece na sua não correspondência depois de ter tentado o plural, se mostra constitutivamente estrangeiro: “sinto o animal que sou por perto” (31).

VII

Em A promessa da felicidade[3], Sara Ahmed destrincha a construção da afetividade do imigrante e a figura do “imigrante melancólico” utilizada por políticas raciais do presente, principalmente nos países da Europa ocidental. Ahmed se refere a uma imigração atravessada por conflitos históricos e políticos, de travessias forçadas, diaspóricas. Mas em alguns pontos a figura do imigrante melancólico pode se aderir a experiências de imigrações diversas, e talvez à figura que enuncia os poemas das palavras trocadas: fato bastante cotidiano na vida entre-línguas que nos marca afetivamente, com lembranças, projeções e modos que acenam para os atritos da integração.


É quase um mote literário dizer que todo poeta é um estrangeiro: estrangeiro na própria língua, estrangeiro de si mesmo. E, se não posso negar essa afirmação porque seria negar a nossa alteridade constitutiva, seria importante perceber que há cenários e atravessamentos singulares e bastante concretos que tornam um sujeito estrangeiro, institucionalmente, nas redes da geopolítica dos Estados nação.


A partir dai, ganha outras camadas o “tom algo melancólico dos poemas”, apontado por Siscar, que vai se grudando nos corpos que povoam os poemas com dificuldade, como no Livro das silhuetas. Não se trata apenas do desencontro da mulher e o homem, do estilhaçamento do nós, da relação com a linguagem. A melancolia não parece ser dos poemas ou dos seus sujeitos, trata-se de algo que acontece aos poemas, se produz neles a melancolia. Se produz no desencontro entre palavra e mundo que não podemos senão constatar. A estrangeria escancara uma alienação afetiva, um não estar sentindo o que deveria estar se sentindo, diz Sara Ahmed. Um descompasso entre as promessas feitas a nós mesmos, e o fato de não sentirmos o que deveríamos sentir. Sentir é tocar, lembremos, nos diz Nancy.[4] E o estrangeiro toca sempre (o) estranho.


As palavras trocadas são também mapas trocados, coordenadas trocadas, ou queimadas, como aconteceu com o Museu Nacional – simbólico alicerce de uma história comum. No poema “Fogo”, ele se torna “cartas perdidas”. Nós – de novo o nós – “chegamos/ aqui”, mas nada se sabe, sabe-se.


Fogo


do museu nacional carbonizado

carregados pelo vento

o passado espalhado

feito cartas perdidas

do que não termina

por toda a cidade

assim também

nós dois

pedacinhos do real

incendiados

com o vento

chegamos

aqui


o resto sabemos

não sabemos


As palavras trocadas se ancora dificultosamente ao “norte do norte” onde o “mar corre pelo avesso”. Parece haver cenários concretos, “um lugar para as palavras trocadas” (embora esse lugar possa ser um quarto com varanda, um lugar sem brisa, mas com rajadas, umas cortinas fechadas, a Av. Rio Branco). Lugar sempre um pouco equívoco, atravessado pelos tempos. Evidentemente poderíamos associar esse lugar estranho à imigração da própria autora, mas seria um pouco direto e simples demais. Como diz o Marcos Siscar no posfácio, a poeta faz “convergir o corpo imediato de suas próprias experiências vividas com a instância daquilo que é adiado, compartilhado, trocado” (51).[5]


VIII

É preciso reconhecer a própria fragilidade e vulnerabilidade para poder tocar. Isto é o que nos diz Daniel Heller Roazen no último capítulo de The inner touch[6], onde ele recupera “Das partes dos animais”, de Aristóteles. Segundo eles, os humanos seriam as carnes mais macias (softest/ malakotate) entre os animais, marcando a fragilidade e a vulnerabilidade do corpo vivente e falante, em oposição às diversas ferramentas corporais das superfícies das peles de outros animais. O corpo bípede entra no mundo desprotegido e totalmente descoberto. Mas, diz ainda Heller Roazen com Aristóteles, essa vulnerabilidade serve a uma causa. O apuro de um dos nossos sentidos: o tato. O sentido propriamente humano, o tato seria um sentido mais sofisticado na nossa espécie do que em outras. Nós tocamos – nós trocamos, com uma sensibilidade delicada, e furiosa.


Mas ainda temos no meio do toque a palavra, para definir o humano. E se é uma discussão longa, na qual não vamos entrar, é importante colocar a palavra junto do toque. Para voltar às tentativas recorrentes de colar e atritar mundo e palavras, na obra de Laura.


Em As palavras trocadas, toca-se aquilo que está em desfazimento, mas toca-se sempre no claro-escuro, no contraponto, de que poderia não sempre ser assim. “Mal começamos a voar/ e uma voz de parte alguma/ vem lembrar que o tempo/ está sempre acabando” (47). E se estes poemas algo melancólicos estão se perdendo, também é verdade que – um pouco a contragosto “não são meus versos o que quero agora” (25)– encontramos os poemas, que não nos livram de nada, de nenhum adeus, mas estão ai: restaurando, precariamente, o vermelho dos nossos corações vermelhos.



[1] https://lauraerberselectedworks.com/videos/ [2] Cf. Antonio Andrade [et al], Indicionário do contemporâneo. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2018. [3] Sara Ahmed. La promesa de la felicidad. Una crítica cultural al imperative de la alegría. (trad. Hugo Salas). Buenos Aires: Caja Negra, 2021. [4] Jean Luc Nancy, “Tacto”, El sentido del mundo (trad. Jorge Manuel Casas). Buenos Aires: La marca, 2003. [5] Marcos Siscar, “As regras do jogo”, in Laura Erber, As palavras trocadas. Belo Horizonte: Ayiné, 2023. [6] Daniel Heller Roazen, The inner touch. Archaeology of a sensation. NY: Zone Books, 2009.


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Luciana Di Leone é crítica literária e professora adjunta do departamento de Ciência da Literatura na Universidade Federal de Rio de Janeiro.

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