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Luta permanente e delícia infinita

Até bem pouco tempo não havia no Brasil manuais de escrita ou guias que convidassem o escriba amador a desbravar os misteriosos mecanismos da redação. E até hoje há quem defenda conceitos furados como “inspiração” ou “vocação” para afirmar que “escritor se nasce” – nada mais do que uma manutenção de privilégios adquiridos (ou já de berço). Também é sintoma dessa prepotência e de falta de cuidado com o escrever o fato de que a maioria das faculdades de ciências humanas em pleno 2026 não ofereça disciplinas de escrita criativa. Talvez por isso a gente leia tantos textos acadêmicos confusos e sem graça. É chato falar, mas há grandes críticos e teóricos que escrevem muito mal. E talvez também por isso os professores estejam recebendo tantos TCCs, dissertações e teses escritas por ChatGPT, Claude, Gemini e seus amigos. Bem feito.


Para além dos desatualizados cursos de humanas, as graduações, os cursos e as oficinas de escrita criativa são relativamente recentes em Pindorama, ao contrário do mundo hispânico, francófono e dos EUA, país que já no século 19 profissionalizava escritores e revelava o primeiro autor de um guia: Edgar Allan Poe. Sua “Filosofia da composição”, que descreve os meandros da criação do poema “O corvo”, é ensaio pioneiro no gênero. Só tem um defeito de fabricação: o uso de exemplos pessoais como bússola para nortear a boa escrita. Sim, há manuais e oficinas por aí em que o autor / professor cita trechos de livros próprios para fundamentar procedimentos. Acho meio cabotino, mas fazer o quê, não sou a Lydia Davis.


E há também aqueles guias caga-regra que elencam princípios, como o “Decálogo do perfeito contista” de Horácio Quiroga. Que tem dicas geniais tipo “Conte como se seu relato não tivesse interesse a não ser para o pequeno ambiente de seus personagens, dos quais você poderia ter sido um”; só que não faz sentido propor receita única para criar arte tão mutante quanto a literatura, nem mandamentos do naipe de “Acredite em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchékhov — como em Deus mesmo”. Isso é mistificação, che.


Apesar de todo o mau humor aí em cima, pode-se afirmar que a literatura brasileira já sustenta uma bela prateleira abordando o gênero “escrita criativa” – e por ângulos bem diversos. Há exemplares híbridos, como Registros e vivências no ensino de redação: uma autobiografia pedagógica, de Gílson Rampazzo (Laranja Original), mestre e escritor paulista pioneiro no ensino da redação de poesia, ensaio e ficção breve para adolescentes e adultos, lecionando desde os anos 1960 no Colégio Equipe e no Museu Lasar Segall, e que acaba de falecer. Também nos deixou agorinha há pouco outro grande professor, o escritor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, autor do ensaístico Os segredos da ficção: um guia na arte de escrever narrativas (Agir) e do didático A preparação do escritor (Iluminuras). Idos na casa dos 80, Carrero e Rampazzo foram os primeiros cabras a democratizar o acesso às musas no Brasil.


Nesta prateleira há também o guia de mais um mestre pioneiro, o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil: Escrever ficção: um manual de criação literária. Na linha ensaística, temos o exemplo de uma autora também professora que dirige um centro de escrita, a paulistana Noemi Jaffe, da Escrevedeira: Escrita em movimento – sete princípios do fazer literário. Mais um livro recentemente publicado, Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs, de Sérgio Rodrigues, alinhava o conhecido talento do carioca em flanar pela etimologia das palavras a uma defesa aguerrida da inteligência artesanal contra a ascensão das IAs – que vêm invadindo de forma contundente este espasso (escrevi errado pra vocês terem certeza que o autor é umano). O trio acima saiu pela Companhia das Letras. Há ainda exemplares que combinam dicas de escrita com aforismos espirituosos sobre o ofício, como os divertidos Ossos do ofídio, do escritor pernambucano Marcelino Freire (Baladeyra), e Manual do estilo desconfiado (Ateliê), do poeta e professor lusobrasileiro Fernando Paixão.


Disse lá em cima que não sou a Lydia Davis pois jamais alcançaria a graça de Um pato amado é assado, coleção de ensaios sobre o fazer literário em que a estadunidense, uma das maiores contistas vivas, usa, sim, os próprios textos como exemplos, acrescendo-lhes seu paideuma e sua rica experiência como tradutora. O livro participa da Errar Melhor, coleção de ensaios sobre escrita, curada pelo matogrossense Joca Reiners Terron, que além de escritor e tradutor ensina escrita criativa e promete para breve o próprio manual (tem publicado trechos em seu Substack). A coleção da WMF Martins Fontes traz ainda os incontornáveis As aulas de Hebe Uhart, da argentina Liliana Villanueva, e Pensar com as mãos, da carioca Marília Garcia, que abordam, uma, o bordado solidário da prosa nas oficinas, e outra, o solitário na poesia.


Um teto só nosso


É nesta prateleira que aterriza Ser escritor: liberdade e consciência na criação literária, de Roberto Taddei (Companhia das Letras). O título, um tanto pomposo ou comercial (existe livro com título parecido, Para ser escritor, do gaúcho Charles Kieffer, da LeYa, de 2010, idem sobre processo de escrita), pode meter medo no leitor incauto (mas não será incauto todo leitor que se preze? Incauto significa “não cauteloso”, e cair de boca na surpresa e no imprevisto, sem rede de proteção, é um dos prazeres da leitura). Romancista, poeta, autor de A segunda morte (2023), mestre em escrita criativa e jornalista, o paulistano Taddei também coordena a pós-graduação de formação de escritores do Instituto Vera Cruz, em São Paulo (onde ministrei jornalismo literário, bom que se diga). Ele traz, nesta coleção de ensaios, uma outra abordagem da literatura: a escrita do ponto de vista do escritor.


Soa como um truísmo, mas não é tão óbvio assim. Entre as múltiplas leituras que se possa aplicar sobre uma produção textual, existe toda sorte de teoria – psicanalítica, estruturalista, hermenêutica, sociológica, biográfica, impressionista, produção de presença, etc etc. Mas essas seriam análises do ponto de vista da literatura comparada. Taddei adota a postura do mecânico que enfia a cara no motor pra entender por que aquele lindo possante emite um ronronado tão gostoso. Neste sentido, está mais próximo da coleção de ensaios no obrigatório Como funciona a ficção, de James Wood (Sesi): quer saber, além do engenho do enredo, como é que a escrita engata, como o personagem pensa, como se movimenta pelo espaço, como nasce e vive.


Ao discorrer sobre o compromisso do escritor e as tensões entre criação e sociedade, se acerca do exemplar mais antigo da nossa prateleira, Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condição e sua realidade social (CEPE), do imenso Osman Lins, pernambucano autor de Avalovara. Mais reflexivo que prático, nunca descuidando do aspecto pedagógico, Ser escritor é um conjunto de ensaios com o foco mais no como funciona do que um manual de como fazer.


Além desta mirada original, o livro elege nomes modernos e contemporâneos para engrenar o escritor iniciante nessa geringonça chamada literatura. Há menções a Poe, Tchékhov e Cortázar, figuras super citadas em toda oficina literária, mas também a Cidinha da Silva, Geovani Martins, Olga Tokarczuk, Javier Cercas, David Foster Wallace. E felizmente há mais ficcionistas aspeados do que críticos e teóricos. Está certo. É hora de os ficcionistas reassumirem o volante de sua própria perspectiva crítica. Chega de interpretação, diria Susan Sontag.


Não por acaso, aliás, Taddei adota uma lupa que estava na moda quando Sontag criou sua teoria da presença: o close reading. Em vez de se deter sobre a biografia do escritor, como então se fazia, o New Criticism estadunidense propunha uma leitura do texto pelo texto, privilegiando forma antes de conteúdo. Taddei recupera essa corrente crítica – porém, a tinge com sensível observação social, não deixando de lado a observação do lugar cultural de onde parte determinado autor para chegar a um específico resultado. Embora esta mirada para dentro da ficção não exclua informações extraliterárias, o gesto ensaístico aqui é a tentativa de reconstituir o caminho da escrita – como é que o autor escolheu estas palavras e não aquelas, por que usa a terceira pessoa e não a primeira, com que voz seus personagens conversam entre si, qual contexto formulou a linguagem expressa no texto etc.


Por isso é que o capítulo abre comentando o clássico feminista Um teto só seu, de Virginia Woolf, sugerindo que, para além de seu combate ao patriarcado, o ensaio “pode ser lido como uma analogia contrária à lógica colonialista”. Ou seja, Taddei pega uma dificuldade básica e óbvia demonstrada por Woolf – toda mulher precisa ter idênticas condições às de um homem para realizar-se como escritora – e a expande, apontando que todo artista também parte de circunstâncias por vezes até mais adversas para alcançar uma autonomia criadora.


O livro avança, então, fazendo uma distinção que, ainda mais nesses tempos em que a autoficção é tendência dominante, virou uma maçaroca: as diferenças entre as figuras de autor, narrador e personagem. Para tanto, investiga o conto “Amor”, de Clarice Lispector, de Laços de família. “O texto estabelece conosco uma relação mista de reconhecimento e projeção”, diz, enquanto vai demonstrando como um conto de enredo simples tem apelo universal.

E aos poucos Taddei mostra como separar as figuras da personagem, da narradora e da autora da história – e as mínimas diferenças entre o uso de um alter ego e a construção de uma identidade ficcional que nasce do embate entre personagem e narradora. “Não podemos confundir a personagem com a autora”, ensina, para, adiante, explicar a função do acompanhamento do enredo: “O que importa não é desvendar o passo a passo da escrita do conto, mas sim conseguir reconhecer o grau de consciência literária envolvido na escrita”.


Dos drones aos deslocados


No capítulo seguinte, Taddei propõe refazer a arquitetura concebida por Tchékhov na novelinha No fundo do barranco, tendo como norte a definição do discurso indireto livre: “Ficamos na dúvida se quem narra é um indivíduo específico, com opinião e capaz de julgamentos, ou se é um narrador olímpico, que tudo vê e tudo sabe” – uma síntese possível desta perspectiva híbrida, muito difícil de executar, em que o autor desloca a câmera da narração do alto do céu para o ombro de cada personagem, ficando ao mesmo tempo do lado de dentro e do lado de fora daquilo que é narrado.


Ou, atualizando a metáfora: “como um movimento descendente de um drone, se aproxima da vila, do círculo familiar e do personagem” – não deixando de lembrar que a tecnologia nasceu depois do conceito, isto é, o conceito do drone já havia sido criado pela literatura bem antes de surgir seu sucedâneo material. É uma maneira inteligente de fazer o leitor mergulhar na questão do foco narrativo e escolher entre as onisciências seletiva e múltipla da primeira e da segunda pessoas ou da onisciência total da terceira pessoa, e, mais tarde, definir se o seu narrador será confiável ou não-confiável – o que inevitavelmente nos leva a Machado de Assis.


A seguir, a partir de “Carta a uma senhorita em Paris”, famoso conto de Julio Cortázar, Taddei discorre sobre os limites entre literatura realista e literatura fantástica, dialogando com Lacan e Freud e tendo como lema a sacada de Olga Tokarczuk: “Real é tudo aquilo que afeta o real”. A “argentinidade” do fantástico, em diálogo com a tradição literária e a metaliteratura, é desenvolvida em outro ensaio, sobre a liberdade narrativa proposta por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. E “O progresso do amor”, de Alice Munro, guia uma viagem pelos conceitos do tempo e do espaço – que, como se sabe, são os outros dois pilares da construção da ficção breve, ao lado da constituição do personagem.


A leitura de Djaimilia Pereira de Almeida, Geovani Martins e Cidinha da Silva é pretexto para Taddei adentrar um território recente nos cursos de escrita criativa: o lugar de fala. No caso, de origem, classe, gênero e racialidade. Deslocamento, pertencimento, autenticidade, representatividade, decolonialidade: conceitos até bem pouco tempo alheios às oficinas de escrita, mais ocupadas em botar os operários pra labutar enredos usando exemplos tirados do cânone da literatura europeia/europeizada – composta quase sempre por homens brancos heterossexuais de classe média ou alta. “A tarefa dos escritores e escritoras contemporâneos seria identificar o que dessa longa tradição continua pulsante, diferenciando o que ainda vive daquilo que caducou (...) e considerar que há muitos outros textos que desconhecíamos e com os quais podemos nos relacionar, textos que não compunham as hierarquias e tradições de épocas anteriores”.


É uma ponte para tratar de um grande enigma contemporâneo: a obra de J.M. Coetzee, atravessada tanto pela grande tradição europeísta como por uma tentativa incessante de desmascarar os colonialismos da linguagem. A leitura aqui é de Juventude, romance de formação que recria o percurso do sul-africano em busca de uma impossível liberdade, para além da identidade nacional, do idioma e da tradição: “Tornar-se escritor não significa publicar um primeiro livro (...) e sim a escrita como compromisso e prática”, resume. Fechando o volume, o último ensaio volta as lentes para o próprio trabalho de ensinar literatura e escrita criativa.


Escrito em registro sério, que em certos momentos tira a leveza do assunto por se aproximar do didatismo, e apesar do estilo sóbrio (ou justamente por causa disso), Ser escritor estabelece um novo padrão ouro na abordagem da escrita criativa enquanto processo desmistificador, profissional, adulto. É uma leitura agradável para quem quer passear pelos bosques e ofícios da ficção tendo um guia sereno, sólido e atento às questões da forma e aos desafios do conteúdo nos tempos que correm. Em sua variada bibliografia, confirma a importância de todo escritor, iniciante ou experiente, manejar um amplo repertório, demarcar o seu paideuma e ser consciente de seu ponto de partida, se quiser intuir o ponto de chegada. No fim das contas, Taddei demonstra que todo livro é um devir, que toda literatura é um processo: ser escritor é um estado permanente e infinito na luta e na delícia de ser escritor.

Ronaldo Bressane para a série especial sobrescrever, do blog da escola. Ronaldo é escritor, jornalista e mestre em letras pela Unifesp. Edita a revista Morel e a newsletter Invenções de Morel, ensina escrita criativa há 20 anos e é autor, entre outros, do romance Escalpo (Reformatório)

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