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escutar as ruínas

enquanto isso Luiza Romão tenta organizar uma greve fantasma*





Escrevo um texto chamado “escutar as ruínas” enquanto gostaria de ter escrito um intitulado “Luiza Romão desce ao Hades e faz o maior barulho”. A poeta parece ter herdado esse gesto de algumas heroínas míticas de dizer não e fazer um som irreconhecível. É assim, por exemplo, que Antígona “pia” e “uiva” na tragédia de Sófocles; é assim que a Hécuba de Eurípedes se precipita para fora da espécie, como disse Anne Carson, na forma canina, em direção a outra linguagem; é assim que Electra faz todo o tipo de sons na versão de Sófocles, porque, como ela afirma, “não tenho como não sofrer”.

No novo livro de Luiza Romão, Também guardamos pedras aqui, a produção de sentido se faz acompanhar o tempo inteiro pela impossibilidade de sentido. São ruinas de linguagem, ruinas sonoras que se colocam aqui e ali. Talvez por isso gostaria de escrever o ensaio “Luiza Romão desce ao Hades e faz o maior barulho” onde veríamos a imagem da poeta no mundo dos mortos dando um jeito de fazer com que ouvíssemos uma porção de coisas. Incluindo a voz estranha dos próprios mortos. Nos poemas de Romão, o passado mítico da literatura, a milenar civilização ocidental patriarcal e a história recente do frágil equilíbrio de nossa República entre a democracia e os regimes autoritários se fundem em textos econômicos, curtos, que dizem muito escrevendo pouco. A secura desses poemas é uma forma de respeito ao que os mortos têm a dizer. Porque os mortos exigem, além das honras funerárias, ouvidos.

No poema “homero”, Romão escreve que os gregos foram capazes de... de que? Uma mancha preta cobre toda a lista dos possíveis e impossíveis na história dos massacres, vinculando esse indizível do horror às ações dos gregos sobre os troianos. Mas também nós conhecemos outras cidades “destroiadas”, destruídas, como Troia. Porém, nos diz Romão, “no último canto de Ilíada / aquiles devolve a príamo / o corpo de seu filho heitor”. Um curto-circuito histórico se segue:


hoje nesse momento aqui

no sul do sul do mundo

ainda não se tem notícia

dos mais de duzentos desaparecidos

na ditadura militar


um corpo é um atestado de barbárie


até os gregos tinham piedade


O acesso aos mitos é quase imediato nesses poemas. Graças a essa imediatez, o acesso à história é mediado pelos mitos. Essa dialética – construída pela forma – garante uma alternância dos registros mítico e histórico. Ela também nivela o que foi perdido simbólica e materialmente: não importa a fonte do sofrimento, todo sofrimento é, aqui, lamentado.

Um dos primeiros eventos da guerra de Troia é o sacrifício de Ifigênia. Os ventos não sopravam mais e um ardil de Agamemnon arranjou os eventos que levaram à tragédia da filha. Por outro lado, a Ilíada não começa daí. Ela começa do ponto em que discutem Aquiles e Agamemnon, o que tiraria aquele, temporariamente, do campo de batalha. E é no contexto dessa contenda que Homero começa o seu primeiro canto, avisando qual é o objeto da Ilíada: a ira de Aquiles. Já Luiza Romão começa diferentemente. Retorna à guerra de Troia para narrar que “a literatura ocidental começou com uma guerra”, “a literatura ocidental começou com um massacre”:


é minha vez de contar a história

esse pacto só sobraram pedras

e rios sob o asfalto esse nevoeiro

agora chamam de santuário

o sêmen sobre os lábios seco

antes da primeira letra

antes do primeiro grifo

alguém já implorava misericórdia

estou pronta para a canção

também as crianças precisam dormir


O poema se chama “ifigênia”, e abre o livro. Sua oscilação entre a guerra e o sono das crianças devolve a carga de brutalidade que atravessa a história dos corpos e a história dos cantos. Uma história de homens educados para a guerra e para o massacre – afinal, como nos lembra o poema “paris”: “não te avisaram i’m so sorry / ninguém lembrou de te contar / um homem que escolhe o amor / não pode ser redimido”. Depois, nos diz que se pode: esfolar os dentes da irmã com acetona; incendiar araucárias em extinção à vontade; pregar carcaças de espécies que desaparecem da terra. Mas não se pode compreender “um homem que escolhe o amor” – “isso é imperdoável”.

Ao propor uma “escuta” dos mortos, a partir de uma conversa quase íntima com tantos personagens das tragédias e dos poemas épicos gregos, o livro de Luiza Romão se aproxima de Troiades: remix para o próximo milênio, de Guilherme Gontijo Flores. Mas nos poemas de Troiades, o procedimento poético é outro: reordenar versos arrancados do espólio desses textos para construir canções de lamento para os derrotados de todos os tempos na história.[1] Romão, de outra maneira, explora formas “menores” (apenas do ponto de vista do cânone) do presente, misturando os registros de “alta” e “baixa” cultura, para produzir choques entre o agora e o passado em canções de outra natureza. O que confere, à sua dicção, um ar pop. E alguma ironia. Em ambos os casos, de toda forma, ainda que com diferentes recursos, trabalhos do luto.

Por outro lado, Também guardamos pedras aqui se aproxima de outro projeto contemporâneo, o da poeta canadense Anne Carson. Afinal, como não lembrar da versão de Carson para a Helena de Eurípedes, Norma Jeane Baker of Troy, em que vemos entrar em cena, brechtianamente, uma Marilyn Monroe com o seguinte discurso:


Esse é o Nilo e eu sou uma mentirosa.

Essas são duas verdades.

Você ainda está confuso?

A peça é uma tragédia. Assistam de perto agora

como eu a salvo da tristeza.

Creio que conheçam a Guerra de Troia

e como foi causada por Norma Jeane Baker,

prostituta de Troia.

Bem-vindos às Relações Públicas.

Era tudo uma farsa.

Blefe, astúcia, fraude, artifício, manha de artimanha.

A verdade é a seguinte:

chegou uma nuvem a Troia.

Uma nuvem na forma de Norma Jeane Baker.

Os deuses meio que arranjaram isso.

(...) Como redimir o bom nome de Norma Jeane?

Como explicar tudo isso a Arthur?

Meu bom marido Arthur,

rei de Esparta e Nova Iorque.

querido honorável, fora de moda Arthur,

que levou um exército a Troia para me trazer de volta.

Eu sou o seu bem mais precioso, afinal – os gregos

valorizam as mulheres menos que o ouro puro,

porém um pouco mais que bois, ovelhas ou cabras –

mas também,

e isso é mais importante,

Arthur é um homem que acredita na guerra.


A história da guerra como história da dominação masculina e projeção das imagens femininas como motivos de guerra. E a história dos derrotados se funde num só acúmulo de catástrofes. O poema “andrômaca” de Romão diz: “não conheci troia / ruínas a mais ruínas a menos / também guardamos pedras aqui”. Romão nos faz ver Troia nas favelas arrasadas, nos campos incendiados, nas aldeias devastadas, nos quilombos destruídos, nas vidas arruinadas. Dialeticamente, nos faz voltar à cidade mítica para ver nela lampejos desse presente em ruínas: “nossos despojos é troia / minhas amigas encurraladas / na mesa do chefe é troia / a jovem saco preto no rosto / festa de luxo é troia / (...) é troia meu companheiro baleado no rosto / é troia os corpos desovados no mangue”. Dispositivo de escuta e reconstrução de Troia.

No ensaio “Luiza Romão desce ao Hades e faz o maior barulho” poderíamos vê-la reunindo os fantasmas numa grande greve da morte. Um som esquisitíssimo rolando. Luiza Romão fazendo piquete às portas da fábrica da literatura. Entre gás de pimenta e nuvens de gás lacrimogêneo ouviríamos outras pessoas gritando também.

[1]Cf. “A correspondência dos derrotados”, crítica de 2016 para o livro de Gontijo no jornal Rascunho. https://rascunho.com.br/ensaios-e-resenhas/a-correspondencia-dos-derrotados/


* Esse texto foi originalmente publicado na Revista Pessoa em 14 de setembro de 2021.

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